Que triste, Doroteu, se pôs a tarde! Assopra o vento sul, e densa nuvem Os horizontes cobre; a grossa chuva, Caindo das biqueiras dos telhados,
Forma regatos, que os portais inundam. Rompem os ares colubrinas fachas De fogo devorante, e ao longe soa, De compridos trovões o baixo estrondo.
Agora, Doroteu, ninguém passeia, Todos em casa estão, e todos buscam Divertir a tristeza que nos peitos Infunde a tarde, mais que a noite feia.
O velho Alcimidonte, certamente, Tem postas nos narizes as cangalhas E, revolvendo os grandes, gordos livros, C’os dedos inda sujos de tabaco,
Ajunta ao mau processo muitas folhas De vãs autoridades carregadas. O nosso bom Dirceu, talvez que esteja Com os pés escondidos no capacho,
Metido no capote, a ler, gostoso, O seu Vergílio, o seu Camões e Tasso. O terno Floridoro, a estas horas, No mole espreguiceiro se reclina
A ver brincar, alegres, os filhinhos: Um já montado na comprida cana E outro pendurado no pescoço Da mãe formosa, que, risonho, abraça.
O gordo Josefino está deitado, Nada lhe importa, nem do mundo sabe; Ao som do vento, dos trovões e chuva, Como em noite tranquila, dorme e ronca;
O nosso Damião, enfim, abana Ao lento fogo, com que, sábio, tira Os úteis sais da terra; e o teu Critilo, Que não encontra, aqui, com quem murmure,
Quando só murmurar lhe pede o gênio, Pega na pena e desta sorte voa De cá, tão longe, a murmurar contigo. Já disse, Doroteu, que o nosso chefe,
Apenas principia a governar-nos, Nos pretende mostrar que tem um peito Muito mais terno e brando do que pedem Os severos ofícios do seu cargo.
Agora, cuidarás, prezado amigo, Que as chaves das cadeias já não abrem, Comidas da ferrugem? Que as algemas, Como trastes inúteis, se furtaram?
Que o torpe executor das graves penas Liberdade ganhou? Que já não temos Descalços guardiães, que à fonte levem, Metidos nas correntes, os forçados?
Assim, prezado amigo, assim devia Em Chile acontecer, se o nosso chefe Tivesse, em governar, algum sistema. Mas, meu bom Doroteu, os homens néscios
Às folhas dos olmeiros se comparam: São como o leve fumo, que se move Para partes diversas, mal os ventos Começam a apontar de partes várias.
Ora, pois, doce amigo, atende o como No seu contrário vício, degenera A falsa compaixão do nosso chefe, Qual o sereno mar, que, num instante,
As ondas sobre as ondas encapela. Pretende, Doroteu, o nosso chefe Erguer uma cadeia majestosa, Que possa escurecer a velha fama
Da torre de Babel e mais dos grandes, Custosos edifícios que fizeram, Para sepulcros seus, os reis do Egito. Talvez, prezado amigo, que imagine
Que neste monumento se conserve, Eterna, a sua glória, bem que os povos, Ingratos, não consagrem ricos bustos Nem montadas estátuas ao seu nome.
Desiste, louco chefe, dessa empresa: Um soberbo edifício, levantado Sobre ossos de inocentes, construído Com lágrimas dos pobres, nunca serve
De glória ao seu autor, mas sim de opróbrio. Desenha o nosso chefe, sobre a banca, Desta forte cadeia o grande risco, À proporção do gênio e não das forças
Da terra decadente, aonde habita. Ora, pois, doce amigo, vou pintar-te Ao menos o formoso frontispício. Verás se pede máquina tamanha
Humilde povoado, aonde os grandes Moram em casas de madeira a pique. Em cima de espaçosa escadaria Se forma do edifício a nobre entrada
Por dois soberbos arcos dividida; Por fora destes arcos se levantam Três jônicas colunas, que se firmam Sobre quadradas bases e se adornam
De lindos capitéis, aonde assenta Uma formosa, regular varanda; Seus balaústres são das alvas pedras, Que brandos ferros cortam sem trabalho.
Debaixo da cornija, ou projetura, Estão as armas deste reino abertas No liso centro de vistosa tarja. Do meio desta frente sobe a torre
E pegam desta frente, para os lados, Vistosas galerias de janelas A quem enfeitam as douradas grades. E sabes, Doroteu, quem edifica
Esta grande cadeia? Não, não sabes. Pois ouve, que eu to digo: um pobre chefe, Que na corte habitou em umas casas Em que já nem abriam as janelas.
E sabes para quem? Também não sabes. Pois eu também to digo: para uns negros, Que vivem, quando muito, em vis cabanas, Fugidos dos senhores, lá nos matos.
Eis aqui, Doroteu, ao que se pode Muito bem aplicar aquela mofa Que faz o nosso mestre, quando pinta Um monstro meio peixe e meio dama.
Na sábia proporção é que consiste A boa perfeição das nossas obras. Não pede, Doroteu, a pobre aldeia Os soberbos palácios, nem a corte
Pode também sofrer as toscas choças. Para haver de suprir o nosso chefe Das obras meditadas as despesas, Consome do senado os rendimentos
E passa a maltratar ao triste povo Com estas nunca usadas violências: Quer cópia de forçados, que trabalhem Sem outro algum jornal, mais que o sustento,
E manda a um bom cabo que lhe traga A quantos quilombolas se apanharem, Em duras gargalheiras. Voa o cabo, Agarra a um e outro, e num instante
Enche a cadeia de alentados negros. Não se contenta o cabo com trazer-lhe Os negros que têm culpas, prende e manda Também, nas grandes levas, os escravos,
Que não têm mais delitos que fugirem Às fomes e aos castigos, que padecem No poder de senhores desumanos. Ao bando dos cativos se acrescentam
Muitos pretos já livres e outros homens Da raça do país e da europeia, Que, diz ao grande chefe, são vadios Que perturbam dos povos o sossego.
Não há, meu Doroteu, quem não se molde Aos gestos e aos costumes dos maiores. Brincando, os inocentes os imitam: Se as tropas se exercitam, eles fingem
As hórridas batalhas; se se fazem Devotas procissões, também carregam Aos ombros os andores e as charolas. Os mesmos magistrados se revestem
Do gênio e das paixões de quem governa. Se o rei é piedoso, são benignos Os severos ministros, se é tirano, Mostram os pios corações de feras.
Por isso, Doroteu, um chefe indigno É muito e muito mau, porque ele pode A virtude estragar de um vasto império. Os nossos comandantes, que conhecem
A vontade do chefe, também querem Imitar deste cabo o ardente zelo. Enviam para as pedras os vadios Que, na forma das ordens, mandar devem
Habitar em desterro novas terras. Ora, pois, doce amigo, já que falo Nos nossos comandantes, será justo Que te dê destes bichos uma ideia.
A gente, Doroteu, que não se alista Nas tropas regulares forma corpos De bisonha ordenança. Não há terra Sem ter um corpo destes. Os seus chefes
Ao capitão maior estão sujeitos, E são os que se chamam comandantes, Porque as partes comandam destes terços. Estes famosos chefes, quase sempre
Da classe dos tendeiros são tirados. Alguns, inda depois de grandes homens, Se lhe faltam os negros, a quem deixam O governo das vendas, não entendem
Que infamam as bengalas, quando pesam A libra de toucinho e quando medem O frasco de cachaça. Agora atende, Verás que desta escória se levanta
De magistrados uma nova classe. Aos ricos taverneiros, disfarçados Em ar de comandantes, manda o chefe Que tratem da polícia e que não deixem
Viver nos seus distritos as pessoas Que forem revoltosas. Quer que façam A todos os vadios uns sumários E que, sem mais processos, os remetam
Para remotas partes, sem que destas Jurídicas sentenças se faculte Algum recurso para mor alçada. Já viste, Doroteu, um tal desmancho?
As santas leis do reino não concedem Ao magistrado régio que execute, No crime o seu julgado, e o nosso chefe Quer que deem as sentenças sem apelo
Incultos comandantes, que nem sabem Fazer um bom diário do que vendem! Concedo, caro amigo, que estes homens São uns grandes consultos, que meteram
Os corpos do direito nos seus cascos. Ainda assim pergunto: e como pode O chefe conceder-lhes esta alçada? Ignora a lei do reino, que numera
Entre os direitos próprios dos augustos A criação dos novos magistrados? O grande Salomão lamenta o povo Que sobre o trono tem um rei menino;
Eu lamento a conquista, a quem governa Um chefe tão soberbo e tão estulto, Que, tendo já na testa brancas repas, Não sabe ainda que nasceu vassalo.
Os néscios comandantes e o bom cabo, Que fez o nosso herói geral meirinho, Remetem, nas correntes, povo imenso. Parece, Doroteu, que temos guerras;
Que, para recrutar as companhias, De toda a parte vêm chorosas levas. Aqui, prezado amigo, principia Esta triste tragédia; sim, prepara,
Prepara o branco lenço, pois não podes Ouvir o resto, sem banhar o rosto Com grossos rios de salgado pranto. Nas levas, Doroteu, não vêm somente
Os culpados vadios; vem aquele Que a dívida pediu ao comandante; Vem aquele que pôs impuros olhos Na sua mocetona, e vem o pobre,
Que não quis emprestar-lhe algum negrinho, Para lhe ir trabalhar na roça e lavra. Estes tristes, mal chegam, são julgados Pelo benigno chefe a cem açoites.
Tu sabes, Doroteu, que as leis do reino Só mandam que se açoitem com a sola Aqueles agressores que estiverem, Nos crimes, quase iguais aos réus de morte.
Tu também não ignoras que os açoites Só se dão, por desprezo, nas espáduas, Que açoitar, Doroteu, em outra parte Só pertence aos senhores, quando punem
Os caseiros delitos dos escravos. Pois todo este direito se pretere: No pelourinho a escada já se assenta, Já se ligam dos réus os pés e os braços,
Já se descem calções e se levantam Das imundas camisas rotas fraldas, Já pegam dois verdugos nos zorragues, Já descarregam golpes desumanos,
Já soam os gemidos e respingam Miúdas gotas de pisado sangue. Uns gritam que são livres, outros clamam Que as sábias leis do rei os julgam brancos.
Este diz que não tem algum delito Que tal rigor mereça; aquele pede Do justo acusador, ao céu, vingança. Não afrouxam os braços dos verdugos,
Mas, antes, com tais queixas, se duplica A raiva nos tiranos, qual o fogo Que aos assopros dos ventos ergue a chama. Às vezes, Doroteu, se perde a conta
Dos cem açoites, que no meio estava, Mas outra nova conta se começa. Os pobres miseráveis já nem gritam: Cansados de gritar, apenas soltam
Alguns fracos suspiros, que enternecem. Que é isso, Doroteu, tu já retiras Os olhos do papel? Tu já desmaias? Já sentes as moções, que alheios males
Costumam infundir nas almas ternas? Pois és, prezado amigo, muito fraco, Aprende a ter valor do nosso chefe, Que à janela se pôs e a tudo assiste
Sem voltar o semblante para a ilharga. E pode ser, amigo, que não tenha Esforço para ver correr o sangue, Que em defesa do trono se derrama.
Aos pobres açoitados manda o chefe Que, presos nas correntes dos forçados, Vão juntos trabalhar. Então se entregam Ao famoso tenente, que os governa
Como sábio inspetor das grandes obras. Aqui, prezado amigo, principiam Os seus duros trabalhos. Eu quisera Contar-te o que eles sofrem, nesta carta,
Mas tu, prezado amigo, tens o peito, Dos males que já leste, magoado; Por isso é justo que suspenda a história, Enquanto o tempo não te cura a chaga.
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