Numa noite sossegado Velhos papéis revolvia, E por ver de que tratavam Um por um a todos lia.
Eram cópias emendadas, De quantos versos melhores Eu compus na tenra idade A meus diversos amores.
Aqui leio justas queixas Contra a ventura formadas, Leio excessos mal aceitos, Doces promessas quebradas.
Vendo sem-razões tamanhas Eu exclamo transportado: “Que finezas tão malfeitas! “Que tempo tão mal passado!”
Junto pois num grande monte Os soltos papéis, e logo, Porque relíquias não fiquem, Os intento pôr no fogo.
Então vejo que o Deus cego Com semblante carregado Assim me fala, e crimina O meu intento acertado:
“Queres queimar esses versos? “Dize, Pastor atrevido, “Essas Liras não te foram “Inspiradas por Cupido?
“Achas que de tais amores “Não deve existir memória? “Sepultando esses triunfos, “Não roubas a minha glória?”
Disse Amor; e mal se cala, Nos seus ombros a mão pondo, Com um semblante sereno Assim à queixa respondo:
“Depois, Amor, de me dares “A minha Marília bela, “Devo guardar umas liras, “Que não são em honra dela?
“E que importa, Amor, que importa, “Que a estes papéis destrua; “Se é tua esta mão, que os rasga, “Se a chama, que os queima, é tua?”
Apenas Amor me escuta Manda que os lance nas brasas; E ergue a chama c’o vento, Que formou batendo as asas.
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