Alexandre, Marília, qual o rio, Que engrossando no inverno tudo arrasa, Na frente das coortes Cerca, vence, abrasa
As cidades mais fortes. Foi na glória das armas o primeiro; Morreu na flor dos anos, e já tinha Vencido o mundo inteiro.
Mas este bom soldado, cujo nome Não há poder algum, que não abata, Foi, Marília, somente Um ditoso pirata,
Um salteador valente. Se não tem uma fama baixa, e escura, Foi por se pôr ao lado da injustiça A insolente ventura.
O grande César, cujo nome voa, À sua mesma Pátria a fé quebranta; Na mão a espada toma, Oprime-lhe a garganta,
Dá Senhores a Roma. Consegue ser herói por um delito; Se acaso não vencesse, então seria Um vil traidor proscrito.
O ser herói, Marília, não consiste Em queimar os Impérios: move a guerra, Espalha o sangue humano, E despovoa a terra
Também o mau tirano. Consiste o ser herói em viver justo: E tanto pode ser herói pobre, Como o maior Augusto.
Eu é que sou herói, Marília bela, Segundo da virtude a honrosa estrada: Ganhei, ganhei um trono, Ah! não manchei a espada,
Não roubei ao dono. Ergui-o no teu peito, e nos teus braços: E valem muito mais que o mundo inteiro Uns tão ditosos laços.
Aos bárbaros, injustos vencedores Atormentam remorsos, e cuidados; Nem descansam seguros Nos palácios cercados
De tropa, e de altos muros. E a quantos nos não mostra a sábia história A quem mudou o Fado em negro opróbrio A mal ganhada glória!
Eu vivo, minha Bela, sim, eu vivo Nos braços do descanso, e mais do gosto: Quando estou acordado Contemplo no teu rosto
De graças adornado: Se durmo, logo sonho, e ali te vejo. Ah! nem desperto, nem dormindo sobe A mais o meu desejo.
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