Dirceu te deixa, ó Bela, De padecer cansado; Frio suor já banha Seu rosto descorado;
O sangue já não gira pela veia, Seus pulsos já não batem, E a clara luz dos olhos se baceia: A lágrima sentida já lhe corre;
Já para a convulsão, suspira, e morre. Seu espírito chega Onde se pune o erro: Late o cão, e se lhe abrem
Grossos portões de ferro. Aos severos Juízes se apresenta, E com sentidas vozes Toda a sua tragédia representa;
Enche-se de ternura, e novo espanto O mesmo inexorável Radamanto. Abre um pasmado a boca, E a pedra não despede;
Outro já não se lembra Da fome, e mais da sede; Descansa o curvo bico, e a garra ímpia Negro abutre esfaimado;
Nem na roca medonha a Parca fia. Até as mesmas Fúrias inclementes Deixam cair das unhas as serpentes. Já votam os Juízes;
E o Rei Plutão lhe ordena Deixe o sítio, em que moram Almas dignas de pena. Já sai do escuro Reino, e da memória
Lhe passa tudo quanto Ou pode dar-lhe mágoa, ou dar-lhe glória Só, bem que o gosto as turvas águas tome, Inda, Marília, inda diz teu nome.
Entra já nos Elísios, Campinas venturosas, Que mansos rios cortam, Que cobrem sempre as rosas.
Escuta o canto das sonoras aves, E bebe as águas puras, Que o mel, e do que o leite mais suaves, Aqui, diz ele, espero a minha Bela;
Aqui contente viverei com ela. Aqui... Porém aonde Me leva a dor ativa? É ilusão desta alma;
Jove inda quer que eu viva. Eu devo sim gozar teus doces laços; E em paga de meus males, Devo morrer, Marília, nos teus braços.
Então eu passarei ao Reino amigo, E tu irás depois lá ter comigo.
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