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1744–1810

Lira XIII

Tomás Antônio Gonzaga

Vês, Marília, um cordeiro De flores enramado, Como alegre corre A ser sacrificado?

O Povo para Templo já concorre; A Pira sacrossanta já se acende; O Ministro o fere, ele bala, e morre. Vês agora o novilho,

A quem segura o laço, No chão as mãos especa, Nem quer mover um passo. Não conhece que sai de um mau terreno;

Que o forte pulso, que a seguir o arrasta, O conduz a viver num campo ameno. Ignora o bruto como Lhe dispomos a sorte;

Um vai forçado à vida, Vai outro alegre à morte: Nós temos, minha bela, igual demência; Não sabemos os fins, com que nos move

A sábia, oculta Mão da Providência. De Jacó ao bom filho Os maus matar quiseram. De conselho o muraram.

Como escravo o venderam. José não corre a ser um servo aflito; Vai subindo os degraus, por onde chega A ser um quase Deus no grande Egito.

Quem sabe o Destino Hoje, ó Bela, me prende. Só porque nisto de outros Mais danos me defende?

Pode ainda raiar um claro dia. Mas quer raie, quer não, ao Céu adoro; E beijo a santa mão, que assim me guia.

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