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1744–1810

Lira XII

Tomás Antônio Gonzaga

Topei um dia Ao Deus vendado, Que descuidado Não tinha as setas

Na ímpia mão. Mal o conheço, Me sobe logo Ao rosto o fogo,

Que a raiva acende No coração. “Morre, tirano; Morre, inimigo.”

Mal isto digo, Raivoso o aperto Nos braços meus. Tanto que o moço

Sente apertar-se, Para salvar-se Também me aperta Nos braços seus.

O leve corpo Ao ar levanto; Ah! e com quanto Impulso o trago

Do ar ao chão! Pôde suster-se A vez primeira; Mas à terceira

Nos pés, que alarga, Se firma em vão. Mal o derrubo, Ferro aguçado

No já cansado Peito, que arqueja, Mil golpes deu. Suou seu rosto;

Tremeu gemendo; E a cor perdendo, Bateu as asas; Enfim morreu.

Qual bravo Alcides, Que a hirsuta pele Vestiu daquele Grenhoso bruto,

A quem matou; Para que prove A empresa honrada, Co’a mão manchada

Recolho as setas, Que me deixou. Ouviu Marília Que Amor gritava;

E como estava Vizinha ao sítio Valer-lhe vem. Mas quando chega

Espavorida, Nem já de vida O fero monstro Indício tem.

Então, Marília, Que o vê de perto De pó coberto, E todo envolto

No sangue seu, As mãos aperta No peito brando, E aflita dando

Um ai, os olhos Levanta ao Céu. Chega-se a ele Compadecida;

Lava a ferida C’o prato amargo, Que derramou. Então o monstro

Dando um suspiro, Fazendo um giro Co’a baça vista, Ressuscitou.

Respira a Deusa; E vem o gosto Fazer no rosto O mesmo efeito,

Que fez a dor. Que louca ideia Foi, a que tive! Enquanto vive

Marília bela, Não morre Amor.

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