Não toques, minha Musa, não, não toques Na sonorosa Lira, Que às almas, como a minha, namoradas Doces canções inspira:
Assopra no clarim, que apenas soa, Enche de assombro a terra! Naquele, a cujo som cantou Homero, Cantou Virgílio a Guerra.
Busquemos, ó Musa, Empresa maior; Deixemos as ternas Fadigas do Amor.
Eu já não vejo as graças, de que forma Cupido o seu tesouro; Vivos olhos, e faces cor-de-rosa, Com crespos fios de ouro:
Meus olhos só veem graças, e loureiros; Veem carvalhos, e palmas; Veem os ramos honrosos, que distinguem As vencedoras almas.
Busquemos, ó Musa, Empresa maior; Deixemos as ternas Fadigas do Amor.
Cantemos o herói, que já no berço As serpes despedaça; Que fere os Cacos, que destrona as hidras; Mais os leões, que abraça.
Cantemos, se isto é pouco, a dura guerra Dos Titãs, e Tifeus, Que arrancam as montanhas, e atrevidos Levam armas aos Céus.
Busquemos, ó Musa, Empresa maior; Deixemos as ternas Fadigas do Amor.
Anima pois, ó Musa, o instrumento, Que a voz também levanto, Porém tu deste muito acima o ponto, Dirceu não sobe tanto:
Abaixa, minha Musa, o tom, qu’ergueste; Eu já, eu já te sigo. Mas, ah! vou a dizer “Herói”, e “Guerra”, E só Marília digo.
Deixemos, ó Musa, Empresa maior; Só posso seguir-te Cantando de Amor.
Feres as cordas d’ouro? Ah! Sim, agora Meu canto já se afina: E a humana voz parece que ao som delas Se faz também divina.
O mesmo, que cercou de muro a Tebas, Não canta assim tão terno; Nem pode competir comigo aquele, Que desceu ao negro Inferno.
Deixemos, ó Musa, Empresa maior; Só posso seguir-te Cantando de Amor.
Mal repito “Marília”, as doces aves Mostram sinais de espanto; Erguem os colos, voltam as cabeças, Param o ledo canto:
Move-se o tronco, o vento se suspende; Pasma o gado, e não come: Quanto podem meus versos! Quanto pode Só de Marília o nome!
Deixemos, ó Musa, Empresa maior; Só posso seguir-te Cantando de Amor.
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