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1744–1810

Lira VII

Tomás Antônio Gonzaga

Meu prezado Glauceste, Se fazes o conceito, Que, bem que réu, abrigo A cândida virtude no meu peito;

Se julgas, digo, que mereço ainda Da tua mão socorro, Ah! vem dar-mo agora, Agora sim que morro.

Não quero, que montado No Pégaso fogoso, Venhas com dura lança Ao monstro infame traspassar raivoso.

Deixa que viva a pérfida calúnia, E forje o meu tormento: Com menos, meu Glauceste, Com menos me contento.

Toma a lira dourada, E toca um pouco nela: Levanta a voz celeste Em parte que te escute a minha Bela;

Enche todo o contorno de alegria; Não sofras, que o desgosto Afogue em pranto amargo O seu divino rosto.

Eu sei, eu sei, Glauceste, Que um bom cantor havia, Que os brutos amansava; Que os troncos, e os penedos atraía.

De outro destro Cantor também afirma A sábia antiguidade, Que as muralhas erguera De uma grande Cidade.

Orfeu as cordas fere; O som delgado, e terno Ao Rei Plutão abranda, E o deixa, que penetre o fundo Averno.

Ah! tu a nenhum cedes, meu Glauceste, Na lira, e mais no canto; Podes fazer prodígios, Obrar ou mais, ou tanto.

Levanta pois as vozes: Que mais, que mais esperas? Consola um peito aflito; Que é menos inda, que domar as feras.

Com isto me darás no meu tormento Um doce lenitivo; Que enquanto a Bela vive, Também, Glauceste, vivo.

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