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1744–1810

Lira VI

Tomás Antônio Gonzaga

Oh! Quanto pode em nós a vária Estrela! Que diversos que são os gênios nossos! Qual solta a branca vela, E afronta sobre o pinho os mares grossos;

Qual cinge com a malha o peito duro, E marchando na frente das coortes, Faz a torre voar, cair o muro. O sórdido avarento em vão defende

Que possa o filho entrar no seu tesouro; Aqui fechado estende Sobre a tábua, que verga, as barras d’ouro. Sacode o jogador do copo os dados;

E numa noite só, que ao sono rouba, Perde o resto dos bens, do pai herdados. O que da voraz gula o vício adora, Da lauta mesa os seus prazeres fia.

E o terno Alceste chora Ao som dos versos, a que o gênio o guia. O sábio Galileu toma o compasso, E sem voar ao Céu, calcula, e mede

Das Estrelas, e Sol o imenso espaço. Enquanto pois, Marília, a vária gente Se deixa conduzir do próprio gosto, Passo as horas contente

Notando as graças do teu lindo rosto. Sem cansar-me a saber se o Sol se move; Ou se a terra volteia, assim conheço Aonde chega o poder do grande Jove.

Noto, gentil Marília, os teus cabelos. E noto as faces de jasmins, e rosas: Noto os teus olhos belos, Os brancos dentes, e as feições mimosas:

Quem faz uma obra tão perfeita, e linda, Minha bela Marília, também pode Fazer os Céus, e mais, se há mais ainda.

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