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1744–1810

Lira V

Tomás Antônio Gonzaga

Eu não sou, minha Nise, pegureiro, que viva de guardar alheio gado; Nem sou pastor grosseiro, dos frios gelos e do sol queimado,

que veste as pardas lãs do seu cordeiro. Graças, ó Nise bela, Graças à minha estrela! A Cresso não igualo no tesouro;

mas deu-me a sorte com que honrado viva. Não cinjo coroa d’ouro; mas povos mando, e na testa altiva verdeja a coroa do sagrado louro.

Graças, ó Nise bela, Graças à minha estrela! Maldito seja aquele, que só trata de contar, escondido, a vil riqueza,

que, cego, se arrebata em buscar nos avós a vã nobreza, com que aos mais homens, seus iguais, abata. Graças, ó Nise bela,

Graças à minha estrela! As fortunas, que em torno de mim vejo, por falsos bens, que enganam, não reputo; mas antes mais desejo:

não para me voltar soberbo em bruto, por ver-me grande, quando a mão te beijo. Graças, ó Nise bela, Graças à minha estrela!

Pela ninfa, que jaz vertida em louro, o grande deus Apolo não delira? Jove, mudado em touro e já mudado em velha não suspira?

seguir aos deuses nunca foi desdouro. Graças, ó Nise bela, Graças à minha estrela! Pertendam Aníbais honrar a História,

e cinjam com a mão, de sangue cheia, os louros da vitória; eu revolvo os teus dons na minha ideia: só dons que vêm do céu são minha glória.

Graças, ó Nise bela, Graças à minha estrela!

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