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1744–1810

Lira IV

Tomás Antônio Gonzaga

Marília, teus olhos São réus, e culpados, Que sofra, e que beije Os ferros pesados

De injusto Senhor. Marília, escuta Um triste Pastor. Mal vi o teu rosto,

O sangue gelou-se, A língua prendeu-se, Tremi, e mudou-se Das faces a cor.

Marília, escuta Um triste Pastor. A vista furtiva, O riso imperfeito,

Fizeram a chaga, Que abriste no peito, Mais funda, e maior. Marília, escuta

Um triste Pastor. Dispus-me a servir-te; Levava o teu gado À fonte mais clara,

À vargem, e prado De relva melhor. Marília, escuta Um triste Pastor.

Se vinha da herdade, Trazia dos ninhos As aves nascidas, Abrindo os biquinhos

De fome ou temor. Marília, escuta Um triste Pastor. Se alguém te louvava,

De gosto me enchia; Mas sempre o ciúme No rosto acendia Um vivo calor.

Marília, escuta Um triste Pastor. Se estavas alegre, Dirceu se alegrava;

Se estavas sentida, Dirceu suspirava À força da dor. Marília, escuta

Um triste Pastor. Falando com Laura, Marília dizia; Sorria-se aquela,

E eu conhecia O erro de amor. Marília, escuta Um triste Pastor.

Movida, Marília, De tanta ternura, Nos braços me deste Da tua fé pura

Um doce penhor. Marília, escuta Um triste Pastor. Tu mesma disseste

Que tudo podia Mudar de figura; Mas nunca seria Teu peito traidor.

Marília, escuta Um triste Pastor. Tu já te mudaste; E a olaia frondosa,

Aonde escreveste A jura horrorosa, Tem todo o vigor. Marília, escuta

Um triste Pastor. Mas eu te desculpo, Que o fado tirano Te obriga a deixar-me;

Pois basta o meu dano Da sorte, que for. Marília, escuta Um triste Pastor.

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