Skip to content
1744–1810

Lira III

Tomás Antônio Gonzaga

Tu não verás, Marília, cem cativos Tirarem o cascalho, e a rica, terra, Ou dos cercos dos rios caudalosos, Ou da minada serra.

Não verás separar ao hábil negro Do pesado esmeril a grossa areia, E já brilharem os granetes de ouro No fundo da bateia.

Não verás derrubar os virgens matos; Queimar as capoeiras ainda novas; Servir de adubo à terra a fértil cinza; Lançar os grãos nas covas.

Não verás enrolar negros pacotes Das secas folhas do cheiroso fumo; Nem espremer entre as dentadas rodas Da doce cana o sumo.

Verás em cima da espaçosa mesa Altos volumes de enredados feitos; Ver-me-ás folhear os grandes livros, E decidir os pleitos.

Enquanto revolver os meus consultos. Tu me farás gostosa companhia, Lendo os fatos da sábia mestra história, E os cantos da poesia.

Lerás em alta voz a imagem bela, Eu vendo que lhe dás o justo apreço, Gostoso tornarei a ler de novo O cansado processo.

Se encontrares louvada uma beleza, Marília, não lhe invejes a ventura, Que tens quem leve à mais remota idade A tua formosura.

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.
Lira III · Tomás Antônio Gonzaga · Poetry Cove