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1744–1810

Lira I

Tomás Antônio Gonzaga

Já não cinjo de louro a minha testa; Nem sonoras canções o Deus me inspira: Ah! que nem me resta Uma já quebrada,

Mal sonora Lira! Mas neste mesmo estado, em que me vejo, Pede, Marília, Amor que vá cantar-te: Cumpro o seu desejo;

E ao que resta supra A paixão, e a arte. A fumaça, Marília, da candeia, Que a molhada parede ou suja, ou pinta,

Bem que tosca, e feia, Agora me pode Ministrar a tinta. Aos mais preparos o discurso apronta:

Ele me diz, que faça do pé de uma Má laranja ponta, E dele me sirva Em lugar de pluma.

Perder as úteis horas não, não devo; Verás, Marília, uma ideia nova: Sim, eu já te escrevo, Do que esta alma dita

Quando amor aprova. Quem vive no regaço da ventura Nada obra em te adorar, que assombro faça: Mostra mais ternura

Quem te ensina, e morre Nas mãos da desgraça. Nesta cruel masmorra tenebrosa Ainda vendo estou teus olhos belos,

A testa formosa, Os dentes nevados, Os negros cabelos. Vejo, Marília, sim, e vejo ainda

A chusma dos Cupidos, que pendentes Dessa boca linda, Nos ares espalham Suspiros ardentes.

Se alguém me perguntar onde eu te vejo, Responderei: No peito, que uns Amores De casto desejo Aqui te pintaram,

E são bons Pintores. Mal meus olhos te riam, ah! nessa hora Teu retrato fizeram, e tão forte, Que entendo, que agora

Só pode apagá-lo O pulso da Morte. Isto escrevia, quando, ó Céus, que vejo! Descubro a ler-me os versos o Deus louro:

Ah! dá-lhes um beijo, E diz-me que valem Mais que letras de ouro.

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