Convidou-me a ver seu Templo O cego Cupido um dia; Encheu-se de gosto o peito, Fiz deste Deus um conceito,
Como dele não fazia. Aqui vejo descorados Os terníssimos amantes, Entre as cadeias gemerem;
Vejo nas piras arderem As entranhas palpitantes. (Diz Cupido) Entre noutro grande Templo;
Que perspectiva tão grata! Tudo quanto nele vejo Passa além do meu desejo, E o discurso me arrebata.
É de mármore, e de jaspe O soberbo frontispício; É todo por dentro de ouro; E a um tão rico tesouro
Inda excede o artifício. As janelas não se adornam De sedas de finas cores; Em lugar dos cortinados,
Estão presos, e enlaçados Festões de mimosas flores. Em torno da sala augusta Ardem dourados braseiros,
Queimam resinas que estalam, E postas em fumo exalam Da Panchaia os gratos cheiros. Ao pé do trono os seus Gênios
Alegres hinos entoam; Dançam as Graças formosas, E aqui as horas gostosas Em vez de correrem voam.
Estão sobre o pavimento Igualmente reclinados, Nos colos dos seus amores, Os grandes Reis, e os Pastores,
De frescas rosas coroados. Mal o acordo restauro, Me diz o moço risonho, Onde vais, lhe digo, explica,
Que beleza aqui nos fica, Sem fazeres caso dela? Ergo o rosto, ponho a vista Na imagem não explicada,
Oh! quanto é digna de apreço! Mal exclamo assim, conheço Ser a minha doce amada. O coração pelos olhos
Em terno pranto saía, E no meu peito saltava; Disfarçando amor, olhava Para mim a furto, e ria.
Depois de passado tempo, A mim se chega, e me abala; Desperto de tanto assombro; Ele bate no meu ombro,
E assim afável me fala: Ao resto Amor me convida, Eu chorando a mão lhe beijo, E lhe digo: Amor, perdoa
Não seguir-te; pois não voa A ver mais o meu desejo.
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