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1744–1810

Lira I

Tomás Antônio Gonzaga

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro, Que viva de guardar alheio gado, De tosco trato, d’expressões grosseiro, Dos frios gelos, e dos sóis queimado.

Tenho próprio casal, e nele assisto; Dá-me vinho, legume, fruta, azeite; Das brancas ovelhinhas tiro o leite, E mais as finas lãs, de que me visto.

Graças, Marília bela, Graças à minha estrela! Eu vi o meu semblante numa fonte, Dos anos inda não está cortado;

Os pastores, que habitam este monte, Respeitam o poder do meu cajado. Com tal destreza toco a sanfoninha, Que inveja até me tem o próprio Alceste:

Ao som dela concerto a voz celeste Nem canto letra, que não seja minha. Graças, Marília bela, Graças à minha estrela!

Mas tendo tantos dotes da ventura, Só apreço lhes dou, gentil Pastora, Depois que teu afeto me segura Que queres, do que tenho, ser senhora.

É bom, minha Marília, é bom ser dono De um rebanho, que cubra monte e prado; Porém, gentil Pastora, o teu agrado Vale mais q’um rebanho, e mais q’um trono.

Graças, Marília bela, Graças à minha estrela! Os teus olhos espalham luz divina, A quem a luz do Sol em vão se atreve;

Papoula ou rosa delicada e fina Te cobre as faces, que são cor de neve: Os teus cabelos são uns fios d’ouro; Teu lindo corpo bálsamos vapora.

Ah! Não, não fez o céu, gentil pastora, Para glória de amor, igual tesouro. Graças, Marília bela, Graças à minha estrela!

Leve-me a sementeira muito embora O rio sobre os campos levantado; Acabe, acabe a peste matadora, Sem deixar uma rês, o nédio gado.

Já destes bens, Marília, não preciso Nem me cega a paixão, que o mundo arrasta; Para viver feliz, Marília, basta Que os olhos movas, e me dês um riso.

Graças, Marília bela, Graças à minha estrela! Irás a divertir-te na floresta, Sustentada, Marília, no meu braço;

Ali descansarei a quente sesta, Dormindo um leve sono em teu regaço; Enquanto a luta jogam os pastores, E emparelhados correm nas campinas,

Toucarei teus cabelos de boninas, Nos troncos gravarei os teus louvores. Graças, Marília bela, Graças à minha estrela!

Depois que nos ferir a mão da Morte, Ou seja neste monte, ou noutra serra, Nossos corpos terão, terão a sorte De consumir os dois a mesma terra.

Na campa, rodeada de ciprestes, Lerão estas palavras os pastores: Graças, Marília bela, Graças à minha estrela!

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