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1744–1810

A UMA DESPEDIDA

Tomás Antônio Gonzaga

Chegou-se o dia mais triste que o dia da morte feia; caí do trono, Dirceia, do trono dos braços teus,

Ah! não posso, não, não posso Dizer-te, meu bem, adeus! Ímpio Fado, que não pôde os doces laços quebrar-me,

por vingança quer levar-me distante dos olhos teus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te, meu bem, adeus!

Parto, enfim, e vou sem ver-te, que neste fatal instante há de ser o teu semblante mui funesto aos olhos meus.

Ah! não posso, não, não posso Dizer-te, meu bem, adeus! E crês, Dirceia, que devem ver meus olhos penduradas

tristes lágrimas salgadas correrem dos olhos teus? Ah! não posso, não, não posso Dizer-te, meu bem, adeus!

De teus olhos engraçados, que puderam, piedosos, de tristes em venturosos converter os dias meus?

Ah! não posso, não, não posso Dizer-te, meu bem, adeus! Desses teus olhos divinos, que, terno e sossegados,

enchem de flores os prados enchem de luzes os céus? Ah! não posso, não, não posso Dizer-te, meu bem, adeus!

Destes teus olhos, enfim, que domam tigres valentes, que nem rígidas serpentes resistem aos tiros seus?

Ah! não posso, não, não posso Dizer-te, meu bem, adeus! Da maneira que seriam em não ver-te criminosos,

enquanto foram ditosos, agora seriam réus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te, meu bem, adeus!

Parto, enfim, Dirceia bela, rasgando os ares cinzentos; virão nas asas dos ventos buscar-te os suspiros meus.

Ah! não posso, não, não posso Dizer-te, meu bem, adeus! Talvez, Dirceia adorada, que os duros fados me neguem

a glória de que eles cheguem aos ternos ouvidos teus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te, meu bem, adeus!

Mas se ditosos chegarem, pois os solto a teu respeito, dá-lhes abrigo no peito, junta-os c’os suspiros teus.

Ah! não posso, não, não posso Dizer-te, meu bem, adeus! E quando tornar a ver-te, ajuntando rosto a rosto,

entre os que dermos de gosto, restitui-me então os meus. Ah! não posso, não, não posso Dizer-te, meu bem, adeus!

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