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1867–1909

CONTO

Sebastião Cícero dos Guimarães Passos

Zé Borrasca, embarcadiço, Que não tem medo da morte, Parte, e sem chorar por isso, Chorando deixa a consorte.

Cruza terra e oceanos, Correndo perigos mil, E, ao fim de dous longos anos, Chega de volta ao Brasil.

Chega pronto a dar abraços, E beijos... Mas, espantado, Acha, da mulher nos braços, Um bebê gordo e corado.

“Senhora!” — e no olhar o brilho Tem de um Otelo feroz... “A quem pertence este filho, Senhora?” — E treme-lhe a voz.

Chora a sogra... A mulher chora Mas Borrasca não descansa: “Senhora! fale, senhora! Quem é o pai da criança?!”

Responde a mulher aos brados, Mostrando o filhinho nu: “Pois se nós somos casados, Ó Borrasca! o pai és tu...”

“Eu, senhora? mente! mente! Nem esta cousa tem jeito! Dous anos estive ausente Da minha pátria e do leito!...”

E ela: “Existem tais enganos! Tantos enganos já vi!... Quem sabe se lá os anos Não são mais longos que aqui?...

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