Zé Borrasca, embarcadiço,
Que não tem medo da morte,
Parte, e sem chorar por isso,
Chorando deixa a consorte.
Cruza terra e oceanos,
Correndo perigos mil,
E, ao fim de dous longos anos,
Chega de volta ao Brasil.
Chega pronto a dar abraços,
E beijos... Mas, espantado,
Acha, da mulher nos braços,
Um bebê gordo e corado.
“Senhora!” — e no olhar o brilho
Tem de um Otelo feroz...
“A quem pertence este filho,
Senhora?” — E treme-lhe a voz.
Chora a sogra... A mulher chora
Mas Borrasca não descansa:
“Senhora! fale, senhora!
Quem é o pai da criança?!”
Responde a mulher aos brados,
Mostrando o filhinho nu:
“Pois se nós somos casados,
Ó Borrasca! o pai és tu...”
“Eu, senhora? mente! mente!
Nem esta cousa tem jeito!
Dous anos estive ausente
Da minha pátria e do leito!...”
E ela: “Existem tais enganos!
Tantos enganos já vi!...
Quem sabe se lá os anos
Não são mais longos que aqui?...