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1740–1811

QUIXOTADA, SÁTIRA

Nicolau Tolentino de Almeida

Espicaça esse animal, Companheiro Sancho Pança, Entremos em Portugal, E vamos molhar a lança

A pró do triste Pombal. Poetas principiantes, Já estou em circo raso: Também Apolo é Cervantes,

Também cria no Parnaso Seus cavaleiros andantes. Não vos chamo, ó sujo rancho. Que até os versos errais;

Em tal sangue as mãos não mancho: Para vós e outros que tais Sobeja a espada de Sancho. Sobre vós carrego a mão,

Sobre vós, ó folhas velhas. Que dais num homem no chão, Sem vos lembrar, que entre ovelhas É fraqueza ser leão.

Essa boca enganadora, Que é hoje da maldição. Mil vezes se pôs outra hora Sobre a praguejada mão,

E lhe chamou benfeitora. Pois já que vós sois assim, Povo revoltoso e ingrato, Hoje castigar-vos vim:

Ireis pelo pó do gato, Nem esp’reis quartel em mim. Santo Tejo, o curso enfreia, E montando rochas duras

Torna atrás a clara veia: Conta novas aventuras Á formosa Dulcineia. Nova guerra o mundo veja,

Guerra em que pouco se arrisca: Serão armas na peleja, Provado fuzil e isca, Seca, espinhosa carqueja.

Irmão Sancho, põe-te a pé, Põe essas rimas a prumo, Princípio à obra se dê. Tolde o ar o negro fumo

Deste novo auto-da-fé. Queima essas sátiras frias, Faltas de siso e conselho: Queima prosas e poesias:

Acabe o cansado velho Em paz os seus tristes dias. Porém poupa sempre alguma Das raras que tem sabor:

Das outras nem deixes uma, Dessas que tudo é rancor, E poesia nenhuma. Em tanto as armas pendura:

Mas se houver desassisados, Que queiram guerra mais dura. Da minha lança cortados Descerão à sepultura.

Já nuvens de fumo vejo: Já chama brilhante o arreda: Já se farta o meu desejo: Já da viva lavareda

Dá o clarão sobre o Tejo. Essas cinzas denegridas, Que ao velho poupam mil mágoas, Leve-as o Tejo envolvidas,

Fiquem no fundo das águas Para sempre submergidas. Vês, Sancho, do nome meu Como voa a clara fama?

Nem viva alma apareceu A apagar a voraz chama. Ninguém, ninguém se atreveu! Vês como ajuda o destino

A um bom cavaleiro andante? Não precisei de aço fino. Nem de pés de rocinante. Nem do elmo de Mambrino.

Ó tu que alçaste a viseira Forcejando os nervos velhos, E para ver a fogueira Limpaste os olhos vermelhos

Na felpuda cabeleira: Abaixa a proa uma vez. Chega a Dulcineia beija, E dize posto a seus pés:

“Formosíssima donzela. Eu sou um triste marquês, “Que fugindo a um povo inteiro, A quem metera em furor

Minha privança e dinheiro. Vim achar mantenedor Em teu nobre cavaleiro. “Disse este povo malvado,

Que eu linha o reino extorquido; Que era gatuno afamado, Ê que em jogos de partido Tinha com todos levado;

“Que no tabaco levava Um quinhão avantajado; Que o sabão não me escapava; É que sem ser deputado

Nas companhias entrava. “Das minhas leis murmuravam E o seus pequenos juízos Tão pouco o ponto tocavam,

Que sempre me eram precisos Assentos que as declaravam. “Té na língua sem motivo Deram críticos revezes:

Fiz n’ela estudo excessivo, Bebi nos bons portugueses Monopólio, e respectivo. “Disse mais o povo insano,

Que perdi de Roma o trilho; Que fui sultão soberano; Que andei casando meu filho Segundo o rito olhomano,

“Mas toda a maldade é sua: Vêm riquezas e palácio, Comem-se de inveja crua: São uns novos cães de Horácio

Ladrando debalde à lua. “Já se me dá pouco ou nada Da sua guerra pequena: Tenho gente em campo armada,

Tenho Mendonça co’a pena, E Dom Quixote co’a espada. “ Esta fala, ou outra igual, Acabada, meu marquês,

Faze reverência formal, E arrasta os gotosos pés Para a vila do Pombal Nela vive descansado,

Porque as águas vão serenas; Sempre ministro de estado, Mandando cousas pequenas No teu Lopes encostado.

Junto à estátua vil canalha Desprende as línguas tiranas; E se esta rude gentalha Arrancar com mãos profanas

A carrancuda medalha; Armas em ouro gravadas Ser-te-ão por mim erigidas, E por ti mesmo traçadas,

Em sangue humano tingidas, E com mil leis penduradas.

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