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1740–1811

O VELHO, SÁTIRA

Nicolau Tolentino de Almeida

Em vão te quero fugir; Faial velhice, as luas selas De perto me vem ferir; Bem ouço o som das moletas,

E bem te sinto tossir: Assim natureza o quis; Já em teu rol me alistaste; Já em triunfo infeliz

Uns óculos arvoraste Neste vencido nariz: Vens agora em teu vassalo Imprimir novos ferretes;

Aos justos me humilho e calo; Brotem nodosos joanetes, Nasça em cada dedo um calo: Mas não dês com mão maldita

Castigo sobre castigo; Eu não fujo à lei prescrita; E teimar tanto contigo. Não e lei, é reivindica:

Queres que nojoso pranto Já me creste rubros olhos? E não farta inda com tanto, Alças barrete de folhos,

E já me apontas um canto? Já me mandas, que abafado, Mártir de algozes receios, Pardo lenço sobraçado,

Tente convulsos passeios No meu galego encostado? Venha o mal, mas não se apresse; Sobre o consultado espelho

Meu rosto não esmorece; Queres saber quem é velho? É velho quem o parece: Sei que a calva me condena;

Que importuna cor desdoura  grenha, pouca, e pequena; Mas esta marrafa loura Lança um véu sobre a gangrena:

Não me venha já fechar Apressada mão ferina; Tenho uma alma, e posso andar; Quero da fiei Nerina

Pela rua passear: Sisudo amor nos prendeu; Nerina não quer ver rotos Os laços que me teceu;

Quer consagrar nossos votos Ante a faixa de Himeneu: Velhos da última idade, Ao longo calção estreito

Mandam apertar metade. Porque inda traz o defeito De andarem nele à vontade; Pois se ha tantos refundidos

Com quem fazes grossa a vista, Seja eu dos favorecidos; Aumenta comigo a lista Dos teus escravos fugidos:

Deixa, enfim, deixa abrandar-te; Quando não, rebelde presa. Hei de as forças disputar-te; Tens por ti a natureza.

Eu tenho o costume e a arte: Troca a arte anosos freixos Em dourado bergantim; Troca em ninfas toscos seixos;

E torna em alvo marfim Podres, solitários queixos: Que imporia que a cor grisalha Me infame o rosto ronceiro.

Se enquanto da Europa ralha, Leva falador barbeiro Os meus anos na navalha? Se em cortesã sociedade

Lésbia contrafaz denguice; E fiada no alvaiade. Quer tributos na velhice. Sem os ter na mocidade:

De tigelas rodeada, Se à vontade os anos troca; E por ficar bem pintada. Com colher dentro da boca

Alteia a face engilhada: Se, a surda orelha aplicando, Por mostrar que ouvira tudo, Vai co’a cabeça aprovando

Maganão, que em ar sisudo. Serpente lhe está chamando: Se assim mesmo quer amantes; Se Alcino ajustando à lira

Mentirosos consoantes, A seus joelhos suspira Pelos brincos de diamantes: Moço de mesquinha sorte,

Que tendo à indigência horror, Vende amoroso transporte, E entoa os hinos de amor Ao simulacro da morte:

Pois se a Lésbia é permitido Rebelar-se à natureza, E a seu duro açoute erguido; Porque estúpida baixeza

Hei de eu dar-me por vencido? Cedam trêmulos jarretas, Que já quatro idades contam; De Cupido as mãos discretas

Sobre cinzas não apontam As suas douradas setas: Ceda Anfrônio, que assentado, O queixo em vão mastigando,

Na poltrona agasalhado, Vai sendo de quando em quando Pelas filhas assoado: Que dando risadas tontas

Da contradança aos enredos, E rezando ao som de afrontas, As netas apertam dedos, Enquanto ele passa contas:

Sobre Anfrônio assenta bem Teu açoute levantado; Contra mim sem tempo vem; Que em estando escanhoado.

Não me troco por ninguém: Debalde de alcatruzar-me Agora em vingança gostas: Vejo Nerina a esperar-me.

Gritarei com dor de cosias, Porém hei de endireitar-me: Gemam, subindo a calçada. Meus torcidos ossos velhos;

Que com a porta cerrada, Pondo a cara nos joelhos, Tomarei folgo na escada: Entrarei fazendo agrados,

Comprados dentes mostrando Os meus beiços ensinados; E nos aventais lançando Mãos cheias de rebuçados:

Direi mil amores ternos, Ante Nerina ajoelhado; Mascarando os meus invernos Com cabeção encarnado,

E botõezinhos modernos: “Meu tudo, vem um primor; Vale mais que mil paraltas; É o retrato do Amor;

Bem lhe estão as feições altas; Vem hoje mesmo uma flor:” “Senhora, são os enganos Da beleza companheiros;

Em mim só ha desenganos; Tendes nestes cavalheiros Mais prendas, e menos anos: “Outra idade me convinha

Para vos ser bem aceito; A acender a paixão minha Vênus contra o vosso peito Seus cisnes não encaminha:”

Beijo-lhe a nevada mão, E vou por ela mandado. Pondo um chapéu de galão, Repetir, com pé virado,

Castelhana relação: Mas tu, velhice raivosa, Só comigo impertinente, Desigual, escandalosa.

Com tantos tão indulgente, Comigo tão rigorosa! Forjando na testa injusta Vis ideias insultantes,

Gritas, que Nerina é justa; Que me lança aos circunstantes, E os diverte à minha custa: Que é a travessa Nerina,

Que me fez ao sol expor Dez manhãs a uma esquina; Sendo as pagas deste amor Risadas, e uma maligna:

Que fios sete amantes seus Que suspiramos feridos Co’as setas do cego deus, Escuta os ternos gemidos;

Mas por mofa, só os meus: Que os olhos, que eu chamo sóis, Mestres de atrativas tretas. Tem só ouro por faróis;

Que ali forja Amor mil seitas. Que levam na ponta anzóis: Mas que bárbara insolência! Que injusto, infernal conceito!

E és tu irmã da prudência? Infamar um casto peito, Trono de amor e inocência? Unir-se a noite co’a aurora.

Ver rebentar d’água fria Viva chama abrasadora, Mais fácil isto seria, Que ser Nerina traidora:

Seus fiscais meus olhos são, Inda d’antes que os seus passos Tocassem paterno chão; Vi-a crescer nos meus braços,

Leio no seu coração: Sem mim nunca pôde estar; Co meu moço à noite vou A sua porta rondar,

Quer saber que ali estou. Gosta de ouvir-me escarrar: Contando histórias de fadas, Em horas que o pai não vem,

E co’as pernas encruzadas. Sentado ao pé do meu bem, Lhe dbo as alvas meadas: Seus escritos, que me afirmam

Singelo amor, fé segura, Com o seu sangue se firmam, Pelos meus olhos o jura, E as criadas o confirmam:

A cassa, a fina sedinha. De que as gavetas são fartas, Com inveja da vizinha, O pai mesmo lê as cartas,

Em que lh’as manda a madrinha: Quando alguém mais cedo chega Nos dias de companhia. Aos p’rigos nunca se entrega;

Leva sempre a austera tia, Inda apesar de ser cega: E tu, velhice cruel, Manchas tão justa paixão!

Com a língua molhada em fel Manchas puro coração, A si e a mim tão fiel! Mas ainda a ser evidente

Quanto queres inventar, Apostolo impertinente. Para que hás de tu suar. Se não sua o padecente?

Doces expressões sinceras, Meigo carinhoso dó, Supõe que não são deveras; Por ventura sou eu só.

Que me nutro de quimeras? Se pôs natureza crua Em cada um, um furor. Só em mim a espada nua?

Se a minha teima é o amor. Todos os mais tem a sua: Fábio, antigo cavalheiro. Mas que herdou só pergaminhos,

Quebrando hoje o mialheiro, Deixou rotos os filhinhos, E comprou um reposteiro: Pede esmola em baixa voz:

E alegre sua alma nobre, Zomba da pobreza atroz. Beijando no dado cobre As armas de seus avós;

Tício de versos falidos Fabricante impertinente, Uns curtos, outros compridos, Quer que gemam igualmente

As imprensas, e os ouvidos: Enfastiados fregueses Juram que este autor é louco; O cego grita seis meses;

E à noite, raivoso e rouco, Conta os mesmos entremezes: Mas freira, que tem dinheiros, E da Fênix Renascida

Repele tomos inteiros; Dois triênios incumbida De dar mofes nos oiteiros; Que hoje com dois estupores,

Buscou dos banhos o abrigo; Pródiga em chá e em louvores, E quem desforra este amigo Do desprezo dos leitores:

Tício ri de sem-razões, Vende ás lendas pelo vulto As divinas produções; E tem dó do povo estulto,

Que gosta mais do Camões: Pois se aqui na terra dura, Que tu empeiorado tens, Não ha sólida ventura,

Deixa-lhe ao menos os bens, Que finge a humana loucura: Mas tais argumentos são Paia o meu caso escusados;

De Nerina a estimação. Firme amor, doces agrados, Não são bens de opinião: Velho que atento namora,

Que arrosta calmas intensas Por servir a quem adora; Que lhe cobra logo as tenças, Que é comprador da senhora;

Que é calado, que é polido, Que tem um coração liso. Com outras não dividido. Pelas damas de juízo

É aos moços preferido; Que faz sobrancelha preta, Corpo esbelto, olhos bonitos. Se sabe a dama discreta.

Que nos cafés seus escritos São a segunda gazela; Mil relógios, mil fivelas. Que aos Adônis muitas deram

Para uma irmã ir a Belas, Á terça feira penderam Nas cabanas das adelas. Cuidas que é um corolário

Ser velho amante infeliz? Amor é muito arbitrário; Manda este sábio juiz Muitas vezes o contrario:

Roto dicionário antigo Me dá Neste assunto a mão; Trata d’’este mesmo artigo; E ainda que é mera ficção,

Atiça a luz ao que eu digo: Branda doença tocava De moço marido o peito; Terna esposa o não deixava;

Desgrenhada sobre o leito, Triste pranto derramava: Vem loquaz medico forte, Que com a pena homicida

Governa as cousas de sorte, Que nos esteios da vida Levanta o trono da morte: Por ele os ais derradeiros

Em milhões de tetos voam; Por ele folgam herdeiros; E em mil ermos adros soam As enxadas dos coveiros:

A triste vítima então, Que o último instante goza, Porque caíra em tal mão. Passou dos braços da esposa

Para as garras de Plutão: Não foi ver a clara luz. Que em doce silencio raia Nesses vastos campos mis,

Aonde o filho de Maia Piedosas sombras conduz: Foi ao reino dos espantos; O coitadinho pasmava,

Quando ali viu tais, e tantos; Viu muitos que ele cuidava Que eram Neste mundo uns santos: Mas o que mais o admirou

Foi ver seu velho criado, Que ele dos bons pães herdou, For longas cãs abonado, E a quem a casa entregou:

Homem, lhe diz, que a ambição Me viesse aqui trazei-, Pede-o a justiça, e a razão; Quis meu filho enriquecer,

E para ele fui ladrão: Mas de ti me maravilho; Dize, ó homem de conselho, Porque vieste a este trilho?

“Vim, responde o aflito velho, Por ser o pai do tal filho:” Com esta história te ensino... Porém tu me tens vendido;

E às ideias que combino. Vás c’o teu queixo caído Dando um sorriso maligno: Dizes que os anos escondo,

Fundando razões nos ventos; Que à parte a verdade pondo, A sisudos argumentos Só com tabulas respondo;

E enquanto te estou provando, Que me devem ter amor. Vás as seta aliando; E o traído pregador

Com elas ameaçando: Fira embora a mão mesquinha, Que eu nunca lhe cederei; E Nerina a paixão minha;

E por casas andarei Atrás d’ela em cadeirinha: Ela virá ajudar Meus tardos, mal firmes passos

E por não me constipar, Irão os seus alvos braços As vidraças abaixar: Sua boca esfriará

Meu chá, se quente o sentir; Meus óculos limpará; E para me fazer rir, No seu nariz os porá:

Perdes enfim os cuidados Sem vires c’os teus sequazes, Triunfantes apupados. Brinco e medo dos rapazes.

Os sujos gatos-pingados: Então quando tendo alçado Das tristes, feridas casas, A morte seu vôo ousado,

Encolher as negras asas, E pousar no meu telhado; Quando os dias que me agouras Sentirem o última trio

Que em teus cofies entesouras, Ê a Parca em meu débil fio Fechar as fatais tesouras; Então sim, então venceste;

Os teus olhos fartarás No triunfo que tiveste: Mas também então verás A loucura que fizeste:

Sem um velho assim jucundo, Que ponha cor, ponha dentes, Quais são teus bens, qual teu fundo? És o terror dos viventes,

És o maior mal do mundo: Sem mim, sem minhas trapaças, Sem ternura, sem meiguice, Sem estudadas negaças,

Como andaria a velhice A par do amor e das graças? Chora então quem te arrancou O arraigado vitupério;

Que os horrores te afastou; Que adoçou o teu império, E que, em te negar, te honrou: E sobre uma campa breve.

Com profundado lavor. Que a mão do tempo não leve, Em honra lua, e do amor. Este epitáfio me escreve:

“Aqui, lisa pedra encobre. Um peito nunca infeliz; Todo o amante ânimo cobre. Vendo que este foi feliz.

Que além de velho, era pobre.”

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