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1740–1811

O BILHAR

Nicolau Tolentino de Almeida

Por fugir da cruel melancolia, Que a estragada cabeça me atropela, Largando o pobre leito, em que jazia, Fui sentar-me num canto da janela;

D’ali pela miúda gelosia, Espreitando, qual tímida donzela, De tudo quanto vi te darei parte, “Se a tanto me ajudar engenho e arte.

Mora defronte roto guriteiro. Com jogo de bilhar e carambola; Onde ao domingo o lépido caixeiro Co’a loja do patrão vai dando à sola;

Gira no liso, verde tabuleiro, De indiano marfim lascada bola, Erguendo aos ares perigosos saltos, Chamam-lhe os mestres d’arte “truques altos”.

Ali se ajunta bando de casquilhos, A que o vulgo mordaz chama rafados; Alto topete, prenhe de polvilhos, Que descalço galego deu fiados;

De quebrados tafuis, vadios filhos, Pelas vastas tablilhas encostados. Altercam mil questões; prontos contendem, Prontos decidem no que nada entendem.

Um quer ver. enfronhado em picaria, Silvada testa no andaluz ginete; Outro prova no chão a ponta fria De luzidio, virginal florete;

Mais amante da paz, outro elogia Do bom Dupré o airoso minuete; E posto em pé, para imitar-lhe os passos, Alteia o peito, e vai torcendo os braços.

Aventuras de amor outro contando. Mostra os escritos de Nerina bela, Onde a mão adorável foi lançando Com pena de peru letra amarela;

Vai com trabalho o triste soletrando As tortas regras, que boçal donzela. De emprestadas finezas carregara, Que piedosa vizinha lhe ditara.

Então diz, que finíssima madeixa Lhe ondeia sobre o ombro torneado; Ali suspira o triste, ali se queixa De ir já sendo por ela desprezado;

Conta, chorando, que esta ingrata o deixa Por esbelto cadete, que rafado, Por mais que ao usurário os soldos peça, A bolsa sempre tem como a cabeça.

Alçando mais os olhos, vi defronto Malhando a fio rígido banqueiro; Que tendo já de marcas alto monte, Ia despindo o mísero parceiro;

Enquanto um diz que lavre, outro que conte, Sem valerem os óculos do olheiro, Numa paz já vencida, um ponto afoito. Sutilmente lhe encaixa duas de oito.

O perito banqueiro afronta os medos, Tendo nas mãos em que se vá vingando; Com cuspo milagroso ungindo os dedos, Vai destramente as cartas recuando;

De ciência infernal, subtis segredos, Com mão ligeira pronto executando, Marcando cartas, inventando nicas, Fazia, em vez de banca, peloticas.

Mas não se livra de subtil calote, Que um velho mansamente lhe tecia; Julgando-o todos misero pixote. Farolins de campanha impune erguia;

Embuçado em diáfano capote. Por um buraco os ganhos recebia; Fora no “cabra” das melhores pernas, Hoje joga os “três setes” nas tavernas.

Os roxos olhos para o ar alçados. Encostado na quina de um bofete, Pensativo taful mordia uns dados. Que seis vezes tiraram “quatro a sele;

Com suspeitas de que eram carregados. Em duro almofariz o triste os mete; E a golpes de martelo aberto o centro. Por fora são marfim; chumbo por dentro.

Mais ao longe, com pálida viseira, Sujo poeta esta vociferando; Da nojosa, empeçada cabeleira. Várias pontas de palha vem brotando;

Os papeis, que lhe pejam a algibeira, Vão pelo forro larga porta achando; Faz da vestia camisa; e é colarinho Torcido solitário pescocinho.

Fora cem vezes em noturno outeiro Da sabia padaria apadrinhado; E diz-se que glosava por dinheiro; Mas creio que atéquí não tem cobrado:

Seguindo em moço o ofício de barbeiro, E das filhas de Jove namorado, Abriu ao mundo aspérrima batalha. Tanto co’a pena, como co’a navalha.

Falou, por afetar musa campestre, Em surrão e cajado muitas vezes; Era um flagelo este tirano mestre Dos ouvidos e faces dos fregueses;

Todos os versos teu da estatua equestre, E todos os famosos entremeses, Que no Arsenal ao vago caminhante Se vendem a cavalo num barbante.

De cansada, rançosa poesia. Grosso volume na algibeira andava; Em vendo gente, logo lá corria, E o fatal cartapácio lhe empurrava;

Acrósticos sonetos repetia, Que só ele entendia, e só louvava; Punha em prosa também muita parola, E acabava por fim pedindo esmola.

Este ouvindo da lomba as prosas frias, E aceso do Parnaso em santo zelo, Alçando a voz, cantou doces poesias, Que invejou de Latona o filho belo;

Jurando que as fizera em poucos dias, Prometeu que as havia dar ao prelo; Mas da roda um dos menos depravados. Em desconto as ouviu dos seus pecados.

“Debalde, diz, o povo vil, perverso, Sobre mim descarrega tiros rudos; Que eu não só sou poeta desde o berço, Mas também tenho sólidos estudos;

Sei que silabas leva cada verso, E não misturo graves com agudos; Rompi outeiros em San’tana, e Chelas, Chamei sul a prelada, ás mais, estrelas.

“Co’as sonoras palavras Pindo, e Plectro, Ponho em meus versos locução divina; E sei, para cumprir as leis do metro, Quanto a história das fabulas me ensina;

Sei que dos céus tem Júpiter o cetro, Que nos infernos reina Proserpina; Â madrugada sempre chamo aurora. Sempre chamo a um jasmim mimo de Flora.

“Sei de certo em que tempo viu o mundo Filhos da terra os quatro irmãos gigantes; Sei finalmente conhecer a fundo O que são consoantes, ou toantes;

Sei tudo, e unicamente me confundo C’uns tais versinhos, que eu não via dantes; Aos novos ursos todo o povo acode, O estilo é sibilino, o nome é ode.

“Fazê-las eu, não posso, nem desejo, Porém sei conhecê-las facilmente: Co’as verdes mãos o serpeado Tejo Meu o trinlíngue, mádido tridente;

Mas que Gorgona filtra? eu vejo, eu vejo. Em dizendo isto, e ode certamente; E filha d’ai te a escuridade delas, E um preceito das desordens belas.

“As tais poesias, que a entender não chego, Podres palavras (em desenterrado; Se levam nó, é tão oculto e cego, Que quem quer desatá-lo, vai logrado;

Dizem que imitam nisto um certo grego, Glória de Tebas, Pindaro chamado; Se isto e assim, a sua língua de ouro Seria grega, usas falava mouro.

“Quatro rapazes estendendo o pano, Deixam as gentes ao redor absortas; Paliando em Venuzino e Mantuano, As musas portuguesas põem por portas;

Aprendendo francês e italiano. E umas tais línguas, a que chamam mortas, Trazem com elas perigosas modas; Mas ainda bem que eu as ignoro todas.

“Diz um sábio que o século presente Ia emendando os erros do passado; Mas que das odes a infeliz torrente Tinha a língua outra vez estropiado;

Que amontoam com mão impertinente, Quantas palavras velhas tem achado; Que se envergonham das que usamos todos, E vão buscá-las muito além dos godos.

“Como a caruncho o podridão condena A lição afetada dos antigos. Não leio Barros, Sousa, nem Lucena. Porque sempre foi bom fugir dos p’rigos;

Ou sempre escreveu mal a sua pena, Ou nunca os leram bem os tais amigos; E por cautela, arreda, bolorentos Ginjas fatais, do tempo de quinhentos.

“Não podem crer os gênios lusitanos. Que as modas, como as vidas, são pequenas; Que já murchou esse estio dos romanos, E influem sobre nós outras Camenas;

Que o tempo tragador, volvendo os anos, Fez cair Roma, fez cair Atenas; Que jaz no pó a Ilíada envolvida, E que alça a frente a Fênix Renascida.”

“Mais ia por diante o monstro horrendo C’o sermão, que ninguém lhe encomendara; Mas inimiga mão lhe foi batendo C’um baralho de cartas pela cara;

Era um ponto infeliz, que estando ardendo, No inocente poeta se vingara; Que não sentiu o ver-se maltratado. Mas ter a porcos pérolas lançado.

Eis que o dono da casa espavorido, Em castigo da sórdida cobiça. Vem com as mãos na cabeça: “Estou perdido, Tenho as casas cercadas de justiça”:

Era domingo, e um ponto arrependido Sentiu então o não ter ido a musa; Não valem rogos seus, nem do banqueiro, É mais brando um leão, que um quadrilheiro.

Mas já faminto alcaide carrancudo Grila no meio da voraz procela: “Bota cordão, Manteiga, agarra tudo, E sentido não saltem da janela.”

Forçoso quadrilheiro, alto e membrudo, Aos desgraçados põe de sentinela; Soam algemas, lançam-se cordões, Cortam-se atrás os cozes dos calções;

Então o triste povo sitiado Faz das bolsas bandeiras de amizade; (Capitula em dinheiro de contado, Negocia-se a paz com brevidade;

Sentiu-se o bom esbirro lastimado, E aos infelizes deu a liberdade; Pagou-lhe o céu tão santo beneficio, Jaz na enxovia, e tem perdido o ofício.

Eis-aqui, meu Alcino tenho exposto, A medicina que me tem sarado; E como trazes o quebrado rosto De lágrimas de dor sempre inundado.

Vem visitar-me um dia, que eu aposto, Que paia casa voltarás curado. Nos costumes também; que aqui enfreias As baldas próprias, rindo das alheias.

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