Senhor, se não é injusto, Que um triste atinando a lira, Entre esperanças e susto As cansadas cordas fira
Ante vós, príncipe augusto; Nos sons que ela der ao ar Irão meus ais de mistura; E dignai-vos de escutar
Desconcertos da ventura, Que vós podeis emendar. Em nada à verdade falto, A dor me aviva a memória;
E por não entrar de salto, Deixai, senhor, que esta história Tome o fio de mais alto. Entre faxas de pobreza
Meus tristes pães me envolveram; Desde então, em crua empresa, Contra mim as mãos se deram A fortuna e a natureza.
Da terna mãe abraçado, Fui em silencio profundo Com triste pranto banhado; Já antevia que o mundo
Tinha mais um desgraçado. Meu bom pai debalde quis Enxugar-lhe o pranto ardente, Que ela, alçando-me, me diz:
“Vem, ó vítima inocente, De um amor casto e infeliz: “Toma os tristes cabedais, Em que teu fado te lança;
Toma pranto e inúteis ais, Entra na funesta herança De teus desgraçados pães. “ Mas, senhor, é pouco aviso
Reais ouvidos magoar, Mudar de estilo é preciso; E se a dor me der lugar, Unirei pranto com riso.
Depois que plano caminho Já meu pé trilhando vai. Pobre alfaiate visinho De um capote de meu pai
Me engendrou um capotinho: Talhando a obra, maldiz A empresa que lhe incumbiram, Fez nigromâncias com giz,
Sete vezes lhe caíram Os óculos do nariz: Sua obra se consagre No portal das Barraquinhas
Com grossas letras de almagre; Tapou geiras, passou linhas, Fez um capote e um milagre: Colchete no cabeção,
Saí novo Adônis bolo. Figa no cós do calção, Carrapito no cabelo, E um biscoitinho na mão:
Sobre sisudo galego, Que vasa barril fiado, Já aos trabalhos me entrego; E em triste pranto lavado,
Á porta de um mestre chego: Debalde o bom mariola Dourava razões pequenas; Minha dor não se consola,
Presságio talvez das penas De outro tempo e de outra escola. Entre medos e violência Entrar no latim já posso,
E jurei obediência A um clérigo, que era um poço De tabaco e de ciência: Dentre o sórdido roupão.
Com a pitada nos dedos, E o Madureira na mão, Revelava altos segredos Do advérbio e conjunção.
Era em gramática abismo, Honrava o século nosso; Porém de tal rigorismo. Que pôs na rua o seu moço,
Por lhe ouvir um solecismo. Entre o Jota e o romano, Que diferença se achasse, Trabalhava havia um ano;
Obra que, se ele a acabasse, Feliz do gênero humano! Enquanto a minha alma emprego Nestas cansadas doutrinas,
Á dourada idade chego De ir ver as vastas campinas, Que banha o claro Mondego. Co’as cabeças mal compostas,
Vejo entre gostos e medos, Mãe e irmãs à adufa postas; Choviam cruzes e credos Sobre as minhas bentas costas.
Já em rápidas carreiras Calcava a real estrada, Sem chapéu, sem estribeiras; Já à catana emprestada
Cortava o vento e as piteiras. Curta, embrulhada quantia. Que ao despedir me foi dada. Espirou no mesmo dia;
E fui fazendo a jornada Quasi com carta de guia. ’ Mas já vejo a branca fronte Da alta Coimbra, fundada
Nos ombros de erguido monte; Já sobre a areia dourada Vejo ao longe a antiga ponte. Povo revoltoso e ingrato
Dentro em seus muros encerra; Em vão de adoçá-lo trato, É um titulo de guerra A chegada de um novato.
Pão amassado com fel, E envolto em pranto, comia; Levei vida tão cruel. Que pior não a teria,
Se fosse estudar a Argel. Sofri contínua tortura, Sofri injurias e acintes; Lancei tudo em escritura,
E nos novatos seguintes Fiquei pago, e com usura. Da bolsa os bofes lhe arranco No fresco pátio de Celas,
Pedindo com gênio franco Doces, gratuitas tigelas Do famoso manjar branco. Sete anos de verde idade
Fui metendo a destra mão Em multas d’esta entidade; Chamou-se boa feição, Mas era necessidade.
Achava-me sempre o dia No teto os olhos pregados; A sagaz economia. Revoando nos telhados,
Ao conselho presidia. Gemer em segredo pude; Que o bom pai, falto de meios, Quanto cheio de virtude,
Só mandava nos correios Novas da sua saúde. Quis de tais ondas sair, E algum bom porto aferrar;
Quis ao publico servir, E mandaram-me ensinar As regras de persuadir. Triste, enganosa ciência!
Dão-lhe louvores, mas falsos; Dizem que pode a eloquência Ir tirar dos cadafalsos A perseguida inocência:
Que chega do peito ao fim, Que arranca forçado pranto; Mas, senhor, não é assim; Esta arte, que louvam tanto,
Só me faz chorar a mim: Pende da hora oportuna; Sem ela verá rasgadas As soltas velas que enfuna;
Arrasta vestes douradas, E é escrava da fortuna: Não a vejo em mim frustrada, Só porque pouca me coube,
De si mesma é mal fadada; A língua que mais a soube Foi. em Roma retalhada. Dezesseis anos gastados
Já no ingrato ofício vão; Tristes versos, mal limados, Pus na vossa augusta mão, Em dor, e em pranto forjados:
Neles, senhor, vos contei As minhas longas fadigas; Hoje o mesmo não direi. Nem co’as lágrimas antigas
Os vossos pés banharei. Para nova e justa dor Peço hoje a vossa piedade; Prestai-lhe ouvidos, senhor,
Funda-se na humanidade. Merece o vosso favor. Rotos os laços do mundo, Entre palavras truncadas,
Que bem mostram d’alma o fundo, Órfãs em pranto banhadas Me entrega o pai moribundo: “Filhas, já o espírito cai;
Já o sangue gela, e cansa; Meus frios olhos cerrai, Aí tendes a vossa herança, Aí tendes o irmão, e o pai:”
Eu, entretanto, suspiro; Sobre o pranteado leito D’entre os braços o não tiro; Quebrou junto do meu peito
O seu último suspiro. Senhor, de meios sou falto; Mas do pai, que aos céus subia, Em nada aos preceitos falto;
Debaixo da campa fria As cinzas me faliam alto: Vai com mão igual cortado, Entre os irmãos infelizes.
Pão com lágrimas ganhado, Que, sem os fazer felizes, Me deixa a mim desgraçado. Se nos ofícios se aprova
Haver aumento e progresso, Não haja tarifa nova; Não seja o meu duro acesso Da cadeira para a cova:
Antes que me adorne a fronte Barrete felpudo e denso, E ao sol no alpendre do Monte, Esfregando o crespo lenço.
Casos do meu tempo conte: Antes que as forças se vão, E que eu viva agasalhado, Boldrié sobre o roupão,
N’unia botica sentado, Vendo jogar o gamão: Antes que entre vis sequazes, Sendo vítima irrisória
De mil galopins vorazes, Em lugar da palmatória, Dê c’o bordão nos rapazes: Tende dó do meu lamento,
Pois que benigno o escutais; A piedade, e o acolhimento São dos corações reais O mais honroso ornamento:
Pobres, chorosos irmãos, Que em mim tem débil coluna, Não ergam desejos vãos; Vejam na minha fortuna
A obra das vossas mãos: Proteger a causa honesta. Ter dos tristes dó profundo, Trocar-lhe a sorte funesta,
Senhor, a glória do mundo. Ou a não ha, ou é esta. Mas já longa narração Vai levando longe a meta;
Já parece, e com razão, Mais que papel de poeta, Ou testamento ou sermão. Minha dor me fez falar,
Fiz queixas assaz compridas; Dignai-vos de desculpar, Que mostre o enfermo as feridas A quem lhas pode sarar.
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