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1740–1811

EM LOUVOR DE UMA SENHORA

Nicolau Tolentino de Almeida

Lira minha, rouca lira, Hoje afinada consente, Que a trêmula mão te fira: Cante uma só vez contente

Quem por costume suspira. Louvemos Anarda bela; Eu veja aos astros subir Meus versos em honra d’ela,

E possa quem os ouvir Adorá-la antes de vê-la. Já ledo as vozes desato: Ouve, ó ninfa, os teus louvores:

Não pretendo ser-te grato Traçando com vivas cores Teu angélico retrato. Permite, Anarda piedosa,

Que se farte o meu desejo N’outra empresa mais gloriosa; Que o menor dom que em ti vejo, É o dom de ser formosa.

Rubra boca, os olhos belos, Que brandamente movidos. São de amor agudos zelos; Sobre alvo colo espargidos

Louros, ondados cabelos; Braço airoso, a mão de neve; Proporcionada cintura; Eis a lua copia breve:

Porém voa a formosura Nas asas do tempo leve. Outros bens mais duradouros Não são à tua alma esquivos,

Bens que nos anos vindouros Valem mais que uns olhos vivos. Que uns soltos cabelos louros. A destruir a beleza

A curva velhice corre: Nada conserva firmeza; Só a virtude não morre: Vence as leis da natureza.

Tu, que prezas a verdade; Que tratas falsos sujeitos Só com a cor de amizade, E para os sinceros peitos

Mostras ter sinceridade; Tu, que os enganos deslizas; Que sabes vencer desgostos; Que a lisonja ufana pisas;

Que não vês somente os rostos; Que até corações divisas; Tu, que da séria prudência Segues os ditames puros;

Que tens amado a inocência, E nos conselhos maduros Mostras de idade experiência; Teu nome eterno ha de ser

Estampado entre as estreitas; Hás de as mais ninfas vencer, Que somente em serem belas Fundam todo o seu poder.

Amam a fofa vaidade; Dos homens a seu sabor Prendem a solta vontade Trazem nos olhos amor,

No’ coração falsidade. Muitas fingem desprezar Finezas de amante rude; Fingem os sábios amar:

Não o fazem por virtude, Querem talentos mostrar. De que serve uma alma pura. Se os pesados membros cobre

Rota, humilde vestidura? Nada vale um peito nobre Numa grosseira figura. Corpo esbelto, onde ajustado

Brilha, cheio de ouro imenso, Curto fraque afrancesado; Cheiroso, cândido lenço; O cabelo apolvilhado;

Jocosas palavras ocas; Estes os dons relevantes, Que deixam de vencer poucas Das que fingem ser amantes,

E não passam de ser loucas. Tu tens outro entendimento: És sempre igual: não te vales Das cores do fingimento:

Quer séria, quer rindo fales, Não fundas torres no vento. Ris da baixa adulação, Mal que os teus ouvidos toca

A contrafeita expressão: Conheces na falsa boca O enganoso coração. Ver sobre mole tapete,

Curvando as pernas e os braços, Peralta de alto topete, Com destros miúdos passos, Dançar francês minuete;

Vê-lo nutrindo esperanças Entre agradáveis parceiras. Fazer rápidas mudanças, Torcendo as mãos nas ligeiras

Buliçosas contradanças; Fervente rebeca ouvir. Que infunde vivos prazeres, Jamais te faz distrair;

Pois antes dos sábios queres Sábios conceitos ouvir. Só te vejo atenta em quanto Ouves palavras discretas;

As musas estimas tanto, Que até dos tristes poetas Te comove o triste pranto. Conheces seu duro mal;

Que sempre tributam fé A coração desleal: Que por isso em todos é A tristeza natural.

Que às ninfas endurecidas Lhes não causam terno efeito; Que triunfam das tingidas. Guardando dentro no peito

Inda frescas as feridas. Porém já que ousei faltar De amor nas sanguíneas queixas, Vou a lira pendurar:

Não quero com minhas queixas Teus louvores misturar. Tu dirás que não tens parte No meu mal cruento e fero;

Que vou tristezas lembrar-te; Dirás que afligir-te quero, Quando desejo louvar-te. Não te deves admirar:

Sei que em vão me estou queixando: Mas quem sente o seu pesar, Se principia cantando, Sempre acaba a suspirar.

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