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1740–1811

EM LOUVOR DA SAÚDE

Nicolau Tolentino de Almeida

Não procura palácios suntuosos A brilhante saúde; O seu rosto agradável e risonho Até aos reis se esconde:

Ela faz com que seja venturoso O roto peregrino. Se entre a negra gadelha lhe aparece Um semblante sadio.

O cativo remeiro fatigado, Do ardente sol não fuja: Em ferros envolvido o duro corpo, Trabalhe o dia inteiro.

O queimado semblante ande banhando De violento suor: Apressado mastigue, e poucas vezes, O corrupto biscoito:

Mas tenha o rosto alegre e sossegado Entre as duras prisões. Se à pálida doença não tem visto O macilento aspeito;

Se com braço membrudo e vigoroso Força o remo pesado. Inda sinto inflamar-me em teus louvores, Oh saúde aprazível!

Tu és ilha do céu, mãe da alegria. Dom de Deus piedoso. Se os míseros mortais expõem a vida Por danosas riquezas;

Por elas que fariam, se servissem De te fazer propícia? Filha do céu benigno, se te deras Por ouro, ou fina prata,

Eu não temera as tempestuosas ondas Do fervido oceano: Nos ocultos sertões iria entrando Co’a mesma cor no rosto;

Não me assustara o dente venenoso Da enroscada serpente: Do fértil oriente nos outeiros (lavaria ansioso.

Por ver se das entranhas te trazia Abundantes tesouros. Mas a bela saúde é dom celeste; Com ouro não se compra:

Ela foge dos ímpios, que se assentam A saborosas mesas; Que adormecem em leitos guarnecidos De preciosas sedas;

E vai guardar, com provido cuidado, O simples pescador, Que sobre ásperas rochas, sem abrigo Aos rigorosos tempos,

Vai nutrindo no corpo mal vestido Um coração sincero; Que humilde sabe erguer ao céu piedoso As inocentes mãos.

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