Musa frouxa e rasteira, Que o louco amor, e seus triunfos cantas, É hoje a vez primeira Que acima das estrelas te levantas;
Não arda o santo fogo Sempre em matérias vãs, de riso e jogo. A virtude sublime, Filha do céu, a cândida amizade.
Que chama feio crime Voltar a cara à pobre humanidade, É quem hoje te inspira. Quem te apresenta a desusada lira.
Debalde negro fado Cobriu meus dias de fortuna escura; Debalde tem jurado Ser meu contrário até a sepultura;
Não dar-me valimento, Deixar meu nome em baixo esquecimento. De solares antigos, Nem tesouros herdei, nem vã grandeza;
No seio dos amigos Me pôs o céu mais sólida riqueza; Não teme duro fado Quem alcançou fiel amigo ao lado.
Sobre inóspita praia Lance o mar o navio destroncado; No rolo d’água saia O náufrago piloto descorado;
Areias não pisadas Ensope o triste em lágrimas cansadas; Se em tão duro castigo O céu, por novo caso não pensado,
O encontrasse c’o amigo, Que anda da cara pátria desterrado, Chorara de alegria. Feliz talvez chamasse o triste dia.
O escravo na corrente, Era misero suor banhado o rosto. Encha d’ouro luzente A mão cruel, que os ferros lhe tem posto,
Do mineiro avarento. Que tem no seu tesouro o seu tormento: Albino impaciente C’os olhos, e as esperanças no Oceano,
Veja vir do Oriente A nau com ouro, e com marfim indiano; Veja o porto aferrado, Chame-se embora bem-aventurado:
Nada d’isto apeteço; Sabem os deuses, e por eles juro. Que os votos que lhe of’reço. Nascidos vem de coração mais puro;
Que estes bens não invejo. Que levanto a mais alto o meu desejo. Se nos serenos ares Lhe vão suspiros meus, d’alma mandados;
Se deixo seus altares De minhas puras lágrimas banhados; Se os comovo à piedade. Meus votos são por ti, santa amizade.
Deem-me fieis amigos, Mostrem-se embora, em tudo o mais, irosos; No meio dos castigos Lhes chamarei benignos e piedosos:
Amigo verdadeiro, Tu vales mais que o universo inteiro.
Cookies on Poetry Cove