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1740–1811

AO MARQUÊS DE LAVRADIO

Nicolau Tolentino de Almeida

Se os versos, que outra hora fiz Escutastes pronto e atento; E se aos pés, que abraçar quis, Achou grato acolhimento

A minha musa infeliz; Dai-me benignos ouvidos A outros, em dor traçados, D’arte, e de enfeite despidos;

Pela verdade ditados, E a vós, senhor, dirigidos: Em louvores não os fundo, Pois sei que sempre os pisastes;

E co’as mais ações confundo As do tempo, em que tomastes As rédeas do Novo-Mundo; Mas se eu disser parte d’elas,

Não me julgueis lisonjeiro: Que vos poupo em não dizê-las, Se vedes, que o mundo inteiro As vai erguendo às estreitas?

Diz que viu a capital Cheia de pompa e grandeza; E que a ergueis a lustre tal D’entre os braços da moleza,

Que é no clima natural; Que nas mãos, onde se encerra Alio poder respeitoso. Mostrastes na nova terra

Ao visinho revoltoso, Numa a paz, em outra a guerra; Que ofereceis a vida então Para a palavra salvar-se,

Que os bons reis não dão em vão; Ação digna de contar-se Entre as de Mário, ou Catão: Que a mão que as quinas volteia,

Justiça ao povo reparte; E que igualmente meneia, Ora as bandeiras de Marte, Ora as balanças de Astreia.

Mas já vossa austeridade Minha narração reprime; Ouvis-me contra vontade; Perdoai, senhor, um crime,

De que foi causa a verdade: Pois que vos não dão desvelos Louvores, que presa a gente, Eu vou, senhor, suspendê-los;

E vou dar-vos novamente Motivos de merecê-los. A minha longa fadiga Já sabeis qual é, senhor;

Levai-me a bem, que a não diga; Deixai-me poupar a dor De abrir uma chaga antiga. Pintar irmãs desgrenhadas

Co’as crianças inocentes Nos débeis braços alçadas, E de lágrimas ardentes, Quase sem fruto, banhadas:

Mostrar-lhe os olhos magoados, Onde inútil pranto assiste, Imóveis no chão pregados, Nutrindo um silencio triste,

Falsa paz dos desgraçados: Contar-vos, que entre os irmãos. Diz o bom pai, com ternura, Que ao céu levantem as mãos;

Que assim se emenda a ventura, E não com queixumes vãos: Que é do espírito fraqueza Perder suspiros no vento;

Que vençam a natureza; Que façam c’o sofrimento Honrosa a dura pobreza: Não lhe ver de dor sinais;

Ter no rosto olhos serenos, E no peito agudos ais; Que porque se escutam menos, Por isso me cortam mais:

Dar-vos uma inteira ideia Da desgraça minha, e d’eles, Pintura de pranto cheia; Se é precisa, é para aqueles,

A quem não dói dor alheia. As almas tão bem nascidas, Como a vossa vejo ser, Para serem condoídas.

Não tem precisão de ver Correr sangue das feridas: Sabeis, que sofro a impiedade De vã fortuna traidora;

Mudai pois de heroicidade; Vinde pleitear agora A causa da humanidade: Por vós tirar não podeis

Penas, que a alma me abafaram; Mas ante o trono valeis; E se o cetro vos fiaram, Que vos negarão os reis?

Reger-lhe os vastos estados, Ir dar-lhe um novo esplendor. São feitos famigerados; Mas inda o será maior

Ir pedir por desgraçados. Disse a César o orador, Que os soldados tinham parte No perigo, e no louvor;

Que fosse em outro estandarte Ele só o vencedor; Que era, de doce brandura O deixar-se então vencer,

Mor vitória, e mais segura; Onde não tinham poder Nem ferro, nem má ventura. Vencei vós sem ter soldados;

Fazei de dias de dor Dias bem aventurados; E possa essa mão, senhor, Mais do que podem meus fados.

Claros avós imitastes, Que o mundo apenas abrange; No berço palmas achastes; Dos heróis que viu o Gange,

O sangue e as ações herdastes: Remotos povos venceram, E mares bravos abrindo. As quinas desenvolveram;

Ante eles o Gange e o Indo Tintos de sangue corieram. Vós, que em obras semelhantes Fostes ser a cópia honrosa

Do que eles fizeram d’antes, Na serie maravilhosa Das vossas ações brilhantes: Consenti, que a larga história,

Que Almeidas levanta aos céus, Lhes deixe no altar da glória Pendente, entre os mais troféus, Uma negra palmatória.

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