Neste despido tronco pendurada, Acaba, ó triste lira, Dos desabridos nortes açoutada; Mão branda não te fira,
E fica volteando ao som do vento, Qual sela do cavalo lazarento. Sempre, lira infeliz, sempre tocaste A fechados ouvidos;
Feminis corações nunca amolgaste Com teus ecos sentidos; Em vão louvavas, junto a Apolo louro, Uns alvos dentes, uns cabelos de ouro.
Deixaste o louco amor, e temperada Novas cordas forcejas; Em ti a clara fama foi cantada Dos ilustres Angejas;
Deste que em mar e terra o mando estende. Que serve um trono, e que de dois descende. De meus pesados dias lhe contaste A lagrimosa história;
Na esquerda mão um livro me pintaste, Na outra a palmatória; Com carregado, ríspido focinho, Ditando leis em tribunal de pinho.
Condoer-se mostrou da vida escura, Que aos olhos lhe tens posto; Pareceu-me que vi nova ventura Mostrar-me o ledo rosto;
Cuidei, que nunca mais, quando tocasse, Com teus sons o meu pranto misturasse. Dos justos reis os olhos penetrantes Sua alma conheciam;
Mil pesados negócios importantes Nos ombros lhe puseram; E a grandes cousas por seus reis chamado, Tirou de ti os olhos, e o cuidado.
Debalde aprende torto corcovado D’airosa dança os passos; Em vão destro Dupré, empertigado, Lhe puxa os curtos braços;
Em vão lhe ensina as leis da ligeireza; Não mudam sabias mãos a natureza. Lira infeliz, debalde se atropela A força dos destinos;
A minha infausta, sanguinosa estrela Influiu nos teus hinos: Que efeito ha de fazer teu som sereno, Se da mão que o tirou leva o veneno?
De baixos versos segue o vil fadário, Diverte a rude gente; Pinta longevo, tonto boticário. De dois dados pendente.
Que alçando a fraca mão, bate nas pernas. Porque inda a tempo viu deitar quadernas. Tu não tens doces vozes moduladas. Que os mansos ares talham;
As nove irmãs, por ti tanto invocadas. De tuas odes ralham; Debalde lhe pediste o santo fogo. São maus teus versos, porque esquecem logo.
Neste deserto fúnebre te arrojo, E de ti me envergonho; Fica, dos ventos misero despojo, Neste sitio medonho.
De lúgubres ciprestes assombrado, Á solidão, e a noite consagrado. Fará eco dos montes na quebrada O som, que ao vento espalhas;
Do curvo bico te verás picada Das agoureiras gralhas; E coberta de seco, inútil funcho, Manjar serás do roedor caruncho.
Se alguma vez ao pé deste deserto, Onde o campo verdeja, Viesse respirar um ar aberto O claro, o ilustre Angeja,
E ao sossego dos campos consagrasse Uma hora, em que aos empregos se furtasse: Se viesse este dia que apeteces, Então não te acovardes,
Imita para ver se o enterneces, A lira de Bernardes; E enquanto for passando, ó triste lira, “Em lugar de tanger, geme, e suspira.
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