Skip to content
1740–1811

A FUNÇÃO, SÁTIRA

Nicolau Tolentino de Almeida

Musa, basta de rimar; Já fazes esforços vãos, Vai a lira pendurar; Não sabem trêmulas mãos

Com as cordas acertar; Já a velhice pesada Te encheu de rugas a testa; Já co’a dura mão gelada

Te pôs a marca funesta Na madeixa branqueada; Teu estro, falto de meios. Já furta mais do que imita;

Vás dando airosos passeios, E todo o povo te grita, “Larga os vestidos alheios”: Tua vaidade faz dó;

Cinges cascos enrugados, Cheios de caruncho e pó. Com velhos louros furtados Do sepulcro de Boileau:

Leste por teu mal um dia Este livro endiabrado; Tal te pôs a fantasia, Que o corpo velho e cansado

Inda te pede folia: Depois que vistosa quinta Te deu brilhante função. Tu de discórdias faminta,

Vens com danada tenção Pôr-me ao pé papel e tinta: Bem me lembra o sitio ameno; Quanto vi tenho presente;

Mas a ti é que eu condeno, Que na ação mais inocente Vás sempre deitar veneno: Com felpudos chapelinhos,

Que estofada pluma ornava, Por aprazíveis caminhos Formoso esquadrão montava Ajaezados burrinhos:

Marcha a tropa; amor a guia; Tu que a mesma estrada trilhas, Mostra-me em todo esse dia Cousas, que não fossem filhas

Da inocência e da alegria? Dizes que pobres donzelas Vão os olhos enganando Com postiças tranças belas,

E chitas de contrabando. Que ainda são das adelas; E que enquanto em tais desmanchos A irmã, com títulos falsos,

Faz a glória destes ranchos, Corre o irmão, c’os pés descalços, Vendendo em Lisboa ganchos: Dizes que um, o qual eu calo,

Assentando que as senhoras Querem todas namorá-lo, Cravando a furto as esporas, Metia em obra o cavalo:

Que outro, falto de expressão, Traficar de longe quis; E com o lenço na mão. Pagava o pobre nariz

Os crimes do coração: Mas quanto atéquí exprimes, Por mais que as cores lhe mudes, Por mais que a teu jeito o rimes,

Creio que não são virtudes, Porém também não são crimes: No largo pátio apeados, Que alva cal em torno pinta,

Dizes que de braços dados Fomos passear na quinta, Uns dos outros separados: Falseando os olhos lumes.

Perdido o siso e o conselho, Gritas em vivos queixumes: “Onde estão, Portugal velho. Onde estão os teus costumes?

“Onde os bons tempos estão Da simples Lisboa antiga’? Quando eia grande função Ir a amiga ver a amiga,

E merendarem no chão! “Quando a filha sem labéu Ia cantar com trabalho, E co’a inocência do céu:

— Senhor Francisco Bandalho, Fita verde no chapéu! — “Oh malditos os primeiros, Que a idade d’ouro inventaram I

Que baniram pegureiros, K nos campos misturaram Os lobos com os cordeiros’ “ Qual, apertando alvos dedos,

Vai dizendo: “Ingrata, aprende Destes passarinhos ledos; Amor sua voz entende, São de amor os seus segredos.

Qual co’a navalha aliada Desigual cortiça aplana D’antiga arvore copada, E entalha, em letra romana,

O nome de sua amada; Beija então as letras belas: E de versos curioso, Pondo brandos olhos n’elas,

Pede ao tronco venturoso, Que as vá erguendo ás estrelas: Dizes que por mais que eu pregue. São baldados meus ofícios;

Que ninguém jamais consegue Marchar sobre precipícios, Sem que algum pé lhe escorregue: Sentam-se entretanto os pães;

Vem gazeta, e rei da Prússia, Vem os Estados Gerais; Marcham com as tropas da Rússia As tropas imperiais:

Um conta da Porta o estado; Diz que das pazes o artigo Vai mui pouco acautelado; E tendo a filha em perigo,

Ri do turco descuidado: Co’a pintada sobrancelha Vai sozinha passeando Boa mãe, sincera velha;

Dos esgalhos resguardando. Ora a peliça, ora a telha; Pondo contra a luz a mão, E crendo que n’esta rua

Está São Sebastião, De Vênus à estatua nua Faz mesura e oração; Em tanto as Vênus melhores,

Do que esta, que a arte fez; Escutam ternos amores, Que estão jurando a seus pés Felizes adoradores:

Basta, musa, pare aí Esse montão inimigo De mentiras, que te ouvi; Tu sempre andaste comigo.

Mas eu nada d’ isso vi; Foi por meu braço levada Uma das ditas donzelas; Feia, mas a estudos dada;

E sobre doutas novelas De tenros anos criada. Levantou sábias questões, Que ela mesma resolveu;

Fez profundas reflexões; E por fim me prometeu Ler-me as suas traduções; Jurou que aprendeu gramática,

E que hoje os livros não fecha Da infalível matemática; E quer ver se o pai a deixa Ir na maquina aerostática:

Só de nós podes falar; Dos mais, como hás de saber. Se vendo-os no bosque entrar, Quando os tornamos a ver

Foi ás horas de jantar’ Dizes que é falso este nome; Que foi jantar de matula. Onde só quem furta, come;

Juras que no aliar da gula Foste vítima da fome; Mas da lua sem razão Eu vi prova verdadeira;

De hábil velha a crespa mão Foi atacando a algibeira C’os sobejos da função: Se Nize, que faz estudo

De afetar moral virtude, Com ar austero e sisudo Faz criminosa saúde Com os olhos no seu Tudo;

Se o chichisbéu seu visinho Lhe vai afagando os dedos Do tenro, surdo pézinho, E por saber-lhe os segredos

Lhe bebe o resto do vinho; Se mau trinchante novato, Mostrando anel de brilhantes, Mas errando a força e o tato.

Com riso dos circunstantes Trinchou o peru e o prato; Se gordo beirão morgado, Â quem seus canhões afrontam,

E em par de meias bordado, Traidores vincos nos contam As vezes que as tem calçado; Seguindo a Nerina o trilho.

Lhe está dizendo que a adora; Que de fartos pães é filho, E (pie venha ser senhora De vinte moios de milho:

Se este infeliz namorado Bordou de arroz o vestido; Se duro garfo aguçado, Na noviça mão metido,

Lhe deixa um beiço espetado; Tudo isto são meros nadas; E toda a indulgência pedem Mesas em barulho armadas;

Piores cousas sucedem Nas que julgas delicadas: Eu já vi boçal criada, Que o fatal segredo espalha,

De estar um moço na escada. Que vem buscar a toalha, Se já está desocupada: Deixa pois tenção ruim;

Foi um sofrível jantar; E depois que ele deu fim, Foi mau ver contradançar Toda a tarde no jardim?

Destros pares perfilados. Que o brilhante enredo tecem, Deram prontos e acertados, Um prazer, que só conhecem

Os corações delicados: Vênus mesma não fizera Jogos mais encantadores, Quando dizem que descera

Entre as graças e os amores Sobre os jardins de Citera: E que mal te fez então, No furor das contradanças,

Ver parceiro cortesão Ir levar à dama as tranças, Que lhe caíram no chão? Das três velhas que dançaram,

Se uma gritou de repente. Foi porque os pés a entregaram, Quando desgraçadamente Os dois calos se encontraram:

E se acaso em ti não ha Gosto por tal passatempo, Enfreia essa língua má; São modas que vem c’o tempo,

O tempo as acabará: Não são os gostos eternos; Teve o Passapié amigos, Ainda não ha quinze invernos;

Foi a glória dos antigos. Hoje e mofa dos modernos: Debalde em ralhar te cansas; Deixa ao tempo os seus caminhos;

Ir-se-ão poupas, ir-se-ão tranças, Histéricos, josezinhos, Feitiços, e contradanças: Em bandolim marchetado,

Os ligeiros dedos prontos, Louro paralta adamado. Foi depois tocar jjor pontos O doce londum chorado:

Se Mareia se bamboleia Neste inocente exercício; Se os quadris saracoteia; Quem sabe se traz cilício,

E por virtude os meneia? Não sentencies de estalo; Tem as danças fim decente; Ama o pai; mas, por deixá-lo,

Dança a donzela inocente Diante de São Gonçalo: Cobrando o pardo dinheiro, De que o povo é tributário,

Velho preto prazenteiro Para glória do rosário. Remexe o corpo e o pandeiro: Em solene procissão

Une a frieleira casta O fandango e a devoção; Mas enfim de exemplos basta, E tornemos à questão:

Já dentre as verdes murteiras, Em suavíssimos assentos, Com segundas e primeiras, Sobem nas asas dos ventos

As modinhas brasileiras: E que mal te fez na porta, Pai que ronda de quadrilha, Cabeleira loura e torta.

Dizer que peçam à filha Um bocado de Comporta? Com que graça vem trazidas, Fingindo-se envergonhadas.

Tenras faces incendidas. Por destros galgos achadas No jogo das escondidas? Musa, abre os olhos escassos,

Não te enganes co’a aparência; Se não torcesses os passos. Acharias a inocência Té no jogo dos abraços:

Marília as linhas espalha; E a cândida mão sem luva Tão destramente as baralha, Que sempre saiu viúva

Santa velha, que não ralha: Tira a este brinco o véu, Útil fim verás mil vezes; Dali sai o chichisbéu;

Dali se levam as rezes Aos altares de Himeneu: E se co’a língua danada Sem motivo envenenaste

A tarde tão bem passada, Com menos causa gritaste Á noite na retirada: Se a pé, dando o josezinho

Escoltou Alcino ledo A Márcia todo o caminho, Foi porque ela tinha medo Que lhe caísse o burrinho:

Todas contentes chegaram; Nenhuma chegou moída; E depois que se apearam, Ali mesmo, à despedida.

Outra função ajustaram: Vês, musa, como atropelas A inocência das funções? Confessa que em todas elas

O mal não vem das ações. Vem de quem julga mal d’elas: Segue outra filosofia; Nem sempre seriedade,

Como nem sempre folia; Na discreta variedade Está do mundo a harmonia: Bravo inglês sanguinolento,

Depois de deixar votado. Que se afronte o mar e o vento, Cuidas que liça fechado Nas salas do parlamento?

Se pela pátria se cansa, Também prazeres deseja; De manhã assusta a França; Arrota à noite cerveja.

Canta mal. e contradança: Trata pois de te emendar, E deixa vidas alheias; Que o povo está a zombar

Enquanto te incham as veias Com a força de pregar: Thomaz dos Pós (’ fez missões; Ajuntou gente infinita;

Mas inda em negros vergões Traz nos artelhos escrita A paga dos seus sermões: Toma enfim a lição minha;

Mas se estás na mesma frágua D’aquela mulher mesquinha, Que alçando a mão fora d’água, Fez c’os dedos tesourinha;

Teme o raivoso furor Do exercito dos paraltas, Que em armas se vai já pôr; Também o das poupas altas.

Que é inimigo pior: Guardam no peito ódio velho Por motivos semelhantes; E se crês no meu conselho,

Mata-lhe antes os amantes, Quebra-lhe o melhor espelho, Proíbe-lhe as convulsões; Abre-lhe ao cãozinho as veias,

Que para tudo ha perdões; Mas nunca lhe chames feias. Nem lhe entendas co’as funções.

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.
A FUNÇÃO, SÁTIRA · Nicolau Tolentino de Almeida · Poetry Cove