Aqui... perdido n’amplidão do Pampa Onde o Gaúcho no ginete voa... Mais veloz que de cima d’uma rampa Uma pedra que cai n’uma lagoa;
Aqui...aonde a cruz de qualquer campa Os mais heroicos feitos apregoa; Onde outr’ora os Farrapos destemidos Batiam-se — sem nunca ser vencidos!...
Aqui — há mais encanto e poesia Do que chega a sonhar a criatura: Quer seja à luz esplendida do dia, Quer das noites na cor azul-escura...
A água dos lajeados, clara e fria, A aragem das coxilhas, fresca e pura, Tudo enfim sob o céu do meu Rio-Grande Fala à alma, que em êxtases s’expande!
À sombra dos angicos e figueiras, Ou das grapiapunhas colossais, Onde dormem a sesta horas inteiras Os tropeiros, ao pé dos animais,
Que, ou atados à soga, ou pelas beiras Dos banhados, por entre os bamburrais, Pastam tranquilamente, enquanto o dono Sem cuidados se entrega a um leve sono...
Quantas lendas não dormem esquecidas, Cobertas da poeira das estradas; Quer sejam peripécias revestidas Das mais trágicas cenas, borrifadas
Do sangue gotejante das feridas Abertas pelas facas afiadas... Ou sejam inocentes devaneios De amantes corações, sensíveis seios!
... Que nuvem é aquela, de poeira, Que em novelos se eleva da picada?... É tão densa e cerrada a polvadeira, Que eu não posso d’aqui descobrir nada...
Ah! lá vejo uma dona feiticeira, N’uma mula manhosa, estropeada, Pouco adiante de um lindo ginetaço, Que vem vindo do tranco no compasso...
Mais atrás, um andante, já velhusco, Aponta para cá de tal maneira Que, se bem não m’engano, esse patusco Vem decerto pousar n’esta aroeira;
O seu pingo, da cor do lusco-fusco, Se não é parelheiro, de carreira, É de certo bagual de estrebaria, Pois cansado não ’stá da montaria.
Um piá, uma velha e um baiano Que, em vez de esc’ramuçar, soca canjica, E um cargueiro, onde um negro, muito ufano, Mostra uns dentes — que muita gente rica
Nem mesmo de um dentista americano Conseguiria iguais...ora, aqui fica, Para não nivelarem-me aos maçantes, A descrição d’aqueles viajantes.
Ei-los que se aproximam... Desencilham Os animais, que soltam d’uma feita; As pratas dos lombilhos inda brilham À frouxa luz do sol, que além se deita...
Uns procuram gravetos, já os pilham; Aquele outro ao isqueiro a pedra ajeita, Lasca fogo — o qual surge de vereda: E à faísca sucede a labareda.
Outro a chocolateira enche no rio, Que à meia braça corre mansamente... E a velha, que não ter nenhum fastio Mostra — pela maneira diligente
Por que do revirado, mesmo frio, Dá que fazer aos queixos habilmente... Diz à morena: “Chega-te, Nhazinha, Prova, como é gostosa esta farinha!”
O monarca, que já está deitado Sobre a carona, à sombra da figueira, Ao passo que o piá ’stá ocupado Em botar lenha à roda da fogueira;
Depois de haver a palha retovado, Nos beiços a segura: e na carreira Pica o fumo na mão, enrola a palha E fuma... enquanto a velha come e ralha:
“Ó negro! pois não vês que já é hora De fincar o churrasco n’esse espeto?” Diz ao mísero escravo a má senhora, Que tem raiva de tudo quanto é preto:
Anda! salta daí... vê lá se agora Queres que vá o pobre do meu neto Fazer o teu serviço — enquanto aí Ficas que nem um rei cheio de si!?...
Já é noite cerrada... E eu, que tenho De acordar ao raiar da madrugada, Pois, se de longe, meu patrício, venho, Não estou nem no meio da jornada;
Dou como terminado este desenho, Que é singela paisagem esboçada Das pinturas gentis de um mundo novo, Onde há monarcas... sim, porém — no povo!
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