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1857–1926

Vivandeiras XI – A guerra do parnaso

Múcio Scevola Lopes Teixeira

Um outro menestrel eis que surgiu na arena, Vestido a gladiador, com ares de Quixote; Nervoso sonhador, feroz como uma hiena, Investindo p’ra mim de um formidável bote.

O loiro menestrel de pálido semblante, Não podendo suster o arnês que o atrofia, Vem atirar-me à face a luva — n’um descante... Disposto a perecer em prol de D. Armia!

Às armas! é a voz que soa a cada passo, “Às armas! ao combate, ao extermínio... à guerra!” As bocas dos canhões cospem risadas d’aço... O sangue dos Romeus corre ensopando a terra...

Enquanto, em Portugal, se vê Guerra Junqueiro Cercado de um tropel de magros Jeremias, Aqui... os menestréis, deixando o formigueiro, Tomam-me de surpresa... armados de elegias!

E os franzinos campeões das líricas cruzadas, Pedindo a D. João a lança dos Tenórios, Desfraldam os pendões à frente das sacadas... Ó doces Napoleões! ó meus gentis Osórios!...

Então vocês estão em campo de batalha, Chamando-me ao combate a rufo de tambores? — De pet’las de jasmins cortais uma mortalha, Para depois dormir n’um túmulo de flores...

Defendam-se, meus bons, meus doces inimigos, Eu alevanto a luva e desembainho a espada; Tenho mais de uma vez me visto em tais perigos, Que as vossas legiões aguardo na esplanada.

Mas, como os coronéis antes da ação travada, Usam passar revista ao batalhão inteiro, Vou ver se a minha Musa está disciplinada E pôr mais um reforço à boca do tinteiro.

Vós acampastes bem: de cima do Parnaso, É só virar p’ra baixo as bocas dos canhões... Visse-me eu lá também — deixava tudo raso: Estais perto do céu... podeis juntar trovões!...

Demais, podeis montar vossas cavalarias No Pégaso — o corcel de Homero, Tasso e Dante; Eu... só tenho animais magros, como as fatias De pão que com o chá me dão n’um restaurante.

Os peitos resguardais com armaduras d’aço, Tendes escudo, arnês e gládio e capacete... Eu nada disso tenho, além de um rude braço Pronto às evoluções rápidas do florete.

Vós tendes madrigais, doces como os canários, E elegias — que são como o dobrar d’um sino... Andais a descobrir cruzes pelos Calvários... Enquanto que eu só tenho o verso alexandrino!...

O verso alexandrino!... Ó mórbidos profetas, Que andais a descobrir astros ao meio dia... Quereis que a multidão vos chame de poetas? Então lançai p’ra um canto a inchada fantasia.

Cantai o bom e o belo, o justo e o sublime; Azorragai o mal, divinizai o bem; Cortai a parasita, equilibrai o vime: Dai aos grandes desprezo, ao mísero um vintém.

Deixai junto das mães as castas Julietas, E ide ver — somente à noite — as barregãs... O tempo encaneceu as longas tranças pretas, Que cantastes outr’ora, em faces de romãs.

Eu também já levei assim noites e dias, Sonhando, sem dormir, com alvas Eleonoras: Umas — leves, ideais, franzinas, doentias.... Outras — gordas, sensuais e de madeixas louras!

Quando passais por mim, sombrios, solitários, Como as virgens que têm acessos de histerismo, Eu não me rio; eu lembro, ó tristes visionários, Que andei d’essa maneira em tempos de lirismo.

Esses tempos, porém, passaram — qual nos ares A luz crepuscular do sol já descambando; Como somem-se além, na solidão dos mares, As velas de uma nau que segue, bordejando....

Ó magros menestréis do sentimentalismo, Que andais de chapéu-alto e pince-nez (grau zero) E à noite improvisais sessões de espiritismo.... Invocando, com medo, a alma atroz de Nero;

Vós lestes Júlio Verne, oh! não negueis; por certo Fostes da terra à Lua... e vistes cousas tais N’aquele grande mundo, aquele céu aberto... Que — até aqui — na Lua ainda vos julgais.

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