A Musa do passado, a sombra luminosa Que povoou de Homero a noite tenebrosa, Que estendeu a Virgílio a vigorosa mão, Guiando-o pela estrada em flor da inspiração;
E mais tarde soltando as asas pelo espaço Chorando penetrou no cárcere do Tasso; A Musa triunfal dos grandes ideais, Que descia com Dante às trevas infernais,
Ou com Milton subia ao claro paraíso, Aonde o beijo é flor e aonde a flor é riso!... A Musa do passado, a filha do Senhor, Casta como o luzir da estrela do pastor,
Impecável e boa, imaculada e pura, Feita de luz, de sons, de frêmitos, de alvura... Que tem nos seios bons, fecundos, maternais, O leite que dá força aos pulsos colossais
De Hércules, de Sansão!... A Musa do passado Caiu como um guerreiro aos golpes d’um soldado, Caiu, como um herói envolto no pendão
Que simboliza a honra, os brios da nação, Nos lábios abafando, em convulsões de glória, Os irritantes sons de um hino de vitória! Alevantou-se então a Musa do presente,
Anêmica, afetada, histérica, doente, Cheia de hipocondria e cheia de rancor, A escarnecer de Deus, das ilusões, do amor, Com os peitos sem leite, as faces carminadas,
A dar cinicamente enormes gargalhadas!... E as lendas varonis dos tempos medievas, Altivas como os sóis, claras como os cristais, Batidas pelo vento, envoltas na poeira,
Passam como a espumante e marulhosa esteira Que deixam após si, do mar nas vastidões, Os vapores — que são os braços das nações! E a Musa que de espada à cinta ia, de farda,
A passo marcial, dos bravos à vanguarda, Bater-se peito a peito, em desvairado ardor, Expondo-se a morrer, demente de valor! Agora...
Oh! irrisão! vergonha! A passos lentos, Como os frades que vão, ébrios, para os conventos, Cambaleando muito, assim como quem vai
Alevantar do chão o que das mãos lhe cai, Caminha pela rua, à toa, a dar topadas, Com a cabeça baixa, as pálpebras cerradas, Levando, a muito custo, uma garrafa... aonde
Lá no fundo, entre a borra, um vinho mau s’esconde. Ela, que foi outr’ora a deusa dos combates, O anjo das vitórias! Passa os dias agora ao lado dos mascates
E as noites a contar fantásticas histórias. Não afasta, ao passar, os verdes reposteiros Dos palácios reais; Vive pelos bordéis, ao lado dos cocheiros,
Até morrer de fome ao pé dos hospitais. Canta auroras do sul em tímidos ensaios, Saúda a madrugada entre os lençóis da cama, Toma café com pão à mesa dos lacaios
E em copos d’aguardente a inspiração inflama. Estende a mão leprosa às meretrizes héticas, E, se caem-lhe aos pés uns cobres esverdeados, Resmunga em voz fanhosa exclamações patéticas,
Que inspiram compaixão aos rotos aleijados. É o requinte imoral de todos os cinismos, A masc’ra das traições, A lama dos pauis, a treva dos abismos,
O dente dos chacais, a garra dos leões!... Não vibra mais a sonorosa tuba Dos homéricos hinos marciais, Fazendo que nos morros corra, suba
A matilha das cabras tropicais, Arrepiando a leonina juba Em contorções selvagens e brutais... Toca viola à porta das amantes,
Cantando serenatas langorosas, Falando só de flores odorantes, Ou trêmulas estrelas luminosas, Fechando o livro aos tristes estudantes
Que consagram-lhe as horas ociosas. Assim os dias passa e leva os meses, Da boêmia na mútua liberdade, Ante a raiva encoberta dos burgueses
E o desprezo integral da sociedade. Quantas vezes, ó Musa! quantas vezes De vir a ser um cão não tens vontade?... Eu sei que tens momentos prolongados
De tristezas enormes!... E que sonhos trevosos e pesados Os que sonhas à noite, quando dormes: Devem ser uns vampiros esfaimados,
Desinquietos, horríficos, disformes!... Avel Musa de outr’ora! envolta em branco véu, Vem derramar na terra a grande luz do céu!... Tu, que seguiste à frente das cruzadas.
Um corcel insofrido cavalgando, Quando o límpido aço das espadas Os lampejos ao sol iam roubando... Tu, que, no mais renhido das batalhas,
Erguida sobre o alto das muralhas, Desfraldavas o pano das bandeiras — Que adejavam em leves caracóis — Ao compasso das músicas guerreiras,
Que ecoavam na boca dos heróis; E, depois d’uma luta gigantesca, Desapertando do joelho as ligas, Ias — por entre a morta soldadesca —
E gritos e lamentos dos feridos, Atar os ferimentos dos vencidos Que te erguiam as destras inimigas!... Ó Musa varonil das velhas tradições!
Tu, que, de boca em boca, às mortas gerações Foste estímulo forte, altivo, sobranceiro, Àqueles corações leais que ao mundo inteiro Legaram um punhal, um copo, ou uma cruz,
Dizendo-se: — Catão, Sócrates ou Jesus... Por que não vens sentar-te à mesa do progresso, Onde a ciência quer a Deus tolher ingresso?... Transpõe a porta enorme e férrea das prisões;
Dá ao bandido um livro em vez d’expiações; Dá um asilo ao velho, ao morto um ataúde, Liberdade à mulher, luzes à juventude. Faze que o povo aprenda a ler aquelas leis
Que o livram do poder despótico dos reis. Transpõe do Vaticano as tenebrosas portas, Atira a uma oficina aquelas vidas mortas... Faze que o padre-santo — o déspota real,
Ponha os oc’los... e leia o gótico missal! E com que a igreja (em vez de casa de negócio, Ou templo alevantado à hipocrisia, ao ócio) Apague as velas e abra as portas p’ra que a luz
Do dia — bata em cheio à face de Jesus!... Manda inscrever na história o nome dos valentes: Bento Gonçalves, Neto, Osório e Tiradentes. Na mão de cada pobre atire-se uma esmola,
Ao pé de cada igreja eleve-se uma escola.
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