Quando a ave da noite abriu as asas, Anunciando a hora do repouso, Eu, que andava em viagem de escoteiro, Dei de rédea a buscar seguro pouso.
Dormir a sós no campo, em noites frias, Sem barraca, sem poncho e sem peães, Exposto aos desertores e aos tigres, Sem ao menos uns três ou quatro cães;
Fora facilitar; e eu, que prezo Com todo o interesse a minha vida, Preferi galopar mais légua e meia, A passar uma noite mal dormida.
E toquei-me, no mais, coxilha fora, Não sentando nem mesmo nas ranhadas, Sem medo de rodar entre a macega, Onde as perdizes dormem sossegadas.
Atravessando o passo, cujas águas Caíam d’uma íngreme pedreira, Sombreadas por folhas verde-escuras Da restinga entrançada em capoeira;
Pela estrada real segui no tranco, Resolvido a pedir uma pousada Na primeira fazenda ou mesmo sítio, Que ficasse mais próximo da estrada.
Não tinha troteado quadra e meia, Quando avistei à esquerda do caminho Uma luz que aos bocados transformou-se N’uma fogueira à frente d’um ranchinho.
Para aí me tocando, à meia rédea, À porteira soltei o “Ó de casa!” (Tirei de trás da orelha o meu cigarro Que acendi d’essa feita n’uma brasa.)
Mal a porta se abriu, velho caboclo “Chegue-se” murmurou em voz amiga; E ouvi as vibrações d’uma viola, Que acompanhava os sons de uma cantiga...
Era uma voz alegre, clara e fresca, Como a voz das crianças inocentes, Dando a uns versos antigos e sem arte Uns trêmulos lascivos e dormentes.
Puxei o meu picaço pela rédea, Levando-o para baixo da ramada; Desencilhei-o aí, tirei-lhe o freio E deixei-o na soga, em boa aguada.
O animal rinchou alegremente, Sacudindo garboso as longas crinas, Espojou-se na relva úmida e verde E gachou-se a pastar pelas campinas.
Era uma noite fresca e constelada, Como são sempre as noites estivais Sob o azul — crivado de brilhantes, Das nossas regiões meridionais.
Como lanternas mágicas acesas No sombrio recinto de um salão, Faiscavam inquietos vagalumes No recanto trevoso d’um capão.
A mudez do noctívago silêncio Era d’espaço a espaço entrecortada Por latidos monótonos e tristes De cães soltos em torno da morada.
Era bem tarde já; porém os galos, Os lascivos sultões do galinheiro, Nem se lembravam de rachar o bico, Encolhidos nas varas do poleiro...
Entrei no rancho: “— Abanque-se, patrício,” O caboclo me disse, e ao fogão Indo logo buscar uma chaleira, Encheu a cuia e deu-me um chimarrão.
Mateamos os dois, falando acerca De cousas passageiras, meros nadas; Nos potros que domara n’esse dia, Nos estragos das muitas enxurradas...
Falou-me de um rapaz dos arredores, Que por causa das últimas carreiras Dera algumas facadas no Manduca, O pobre do Manduca das Mangueiras!...
Contou-me que indo além parar rodeio, Encontrara umas vascas pesteadas, Mas que havia curá-las das bicheiras, Com umas benzeduras muito usadas...
Que tinha em seu piquete dois cavalos, — Um malacara e outro tobiano — Com gafeiras, coerudos e com brocas, Mais tristes do que um vento minuano.
Enfim, ele falou-me das misérias Que perseguem os pobres criadores, Que p’ra ter um churrasco sobre a cinza Andam à chuva, ao sol e aos calores.
Tive pena do mísero caboclo; Consolei-o com frases corriqueiras, E perguntei quem era que à viola Cantava ali modinhas brasileiras:
“É minha filha” respondeu-me, e indo Para a porta que dava p’ra varanda: “Chinoca disse, “escondes-te da gente? Por que foste p’ra dentro? vem cá, anda.”
Pouco depois, o rosto mais mimoso Que eu tenho visto em corpo de donzela, Assomava, modesto, ingénuo e tímido, Tornando-a em seu enleio inda mais bela!
Só co’a palheta mágica de Rubens, Ou o pincel de Sânzio em mão de Apeles, Eu pudera alinhar aquelas formas, Pintar a maciez das suas peles.
Havia em seu olhar, quebrado e úmido, Um mar de aspirações indefinidas... E nas túmidas pomas, meio nuas, Viam-se jambos e romãs partidas.
“Fugia por minha causa?” — Perguntei-lhe, Fitando-a com respeito e com surpresa: “Não, senhor; como um hospede chegasse, Fui fazer o café, que está na mesa.”
Entramos na varanda: era pequena, Mas alegre, bem clara e arejada; Tinha duas janelas p’ra o terreiro E uma rede n’um canto pendurada.
Sobre uma grande caixa de madeira, Capaz de acomodar uma baleia, A carona, o baixeiro e os pelegos Formavam uma cama de mão cheia.
Depois, por travesseiro — um serigote, Sob a xerga, enfronhada na badana... Podia-se dormir a sono solto, Mais a gosto que em lânguida otomana.
Sobre a mesa de pinho, sem toalha, Três tigelas de louça, um prato raso, A chaleira por cima d’um tijolo E uns grãos de milho esparsos ao acaso...
A um canto, uma espingarda de dois canos, Encostada à parede enfumaçada, D’onde pendia um velho polvarinho E um chumbeiro de pele retouvada...
Tais eram os adornos resumidos D’aquela habitação singela e pobre, Onde um lindo tesouro de virtudes A sorte confiara a um’alma nobre.
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