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1857–1926

V Desejos

Múcio Scevola Lopes Teixeira

Quando, aos trêmulos raios do crepúsculo, Penetro a sós na solidão das matas, Ao marulhoso múrmur das cascatas Que rolam das pedreiras colossais,

A legião fantástica das árvores, De galhos retorcidos para os ares, Assim como uns gigantes seculares Dia e noite afrontando os temporais;

Faz-me lembrar, não sei por que mistério, Os guerreiros das tribos indianas, Que tinham nas florestas as cabanas E nas cabanas a cabocla em flor.

Ah! flor morena dos vergéis da América! Quem mo dera poder (nem sei se o diga) Desatar de tua perna a rubra liga, Nos delírios de um ímpeto de amor!...

Quem me dera embalar-me, nas vigílias, Na rede onde dormias ao relento, Tendo por cortinado o firmamento E por tapete as flores do vergel...

Das estrelas ao vivo alampadário Ver-te nua e medrosa em meus joelhos, E nos teus lábios quentes e vermelhos Em beijos prelibar favos de mel!...

Contigo, à claridão de um luar límpido, Cortando na barranca uma taquara, Com ela ir dirigindo a leve igara Do manso rio à superfície azul...

Cantando juntos a canção dos índios, As lendas d’essa raça extinta agora, Lendas que o céu da pátria ouvia outr’ora Do Prata ao Tocantins...do Norte ao Sul!

E depois, quando a Lua e o silêncio Por alta noite povoassem tudo, Ir pisando sutil, trêmulo e mudo, Para não despertar o piaga ancião...

— Lutando os meus desejos com os zéfiros Que beijassem-te os fios dos cabelos, Ébrio de languidez, ébrio de zelos, Levar-te nos meus braços ao sertão.

No centro mais sombrio e solitário De uma gruta de galhos entrançados, Onde outros corações apaixonados Não batessem de amor, nem uma vez;

De rosas brancas desfolhando as pétalas No capinzal, eu formaria o leito Para dormirmos — peito contra peito — Lábio com lábio, em lânguida mudez!...

Quando, aos trêmulos raios do crepúsculo, Penetro a sós na solidão das matas, Ao marulhoso múrmur das cascatas Que rolam das pedreiras com fragor,

Vêm-me então à lembrança, em vagos êxtases, Os guerreiros das tribos indianas, Que tinham nas florestas as cabanas E nas cabanas a cabocla em flor!...

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