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1857–1926

Sonâmbulas XV - Sultão

Múcio Scevola Lopes Teixeira

Chamava-se Sultão: Era grande, delgado e escuro, como o são Nas regiões do polo as noites de seis meses... Tinha o pelo macio e crespo e cintilante,

Como árabes corcéis de azevichada cor; A cauda extensa e basta; os olhos, umas vezes Úmidos de langor, Como os olhos sensuais das mórbidas donzelas,

Histéricas, nervosas... Outras vezes então de um brilho fulgurante, Como as cintilações esplêndidas e belas Das pedras preciosas.

Criado de pequeno Com toda a profusão de mimos e desvelos, Que dispensam à infância os corações singelos, Os corações das mães;

Sultão, o mais ditoso e o mais fiel dos cães, Passava o dia inteiro entregue a seus instintos E as noites — a fitar a palidez da Lua... Cedendo de bom grado os restos do, jantar

Aos magros cães da rua, Humildes e famintos, Que andavam, como Jó, leprosos e a uivar... Seu dono, que o amava,

Bem como o Nazareno às tímidas crianças, Gomo sabem amar as almas cristalinas, Frescas como as campinas, Verdes como esperanças!

Seu dono via n’ele a imagem d’um amigo Discreto, estremecido, e sempre bem disposto: Que não trepidaria em face de um perigo, Contanto que o livrasse assim d’algum desgosto.

Prendia ao dono o cão O laço da amizade Mais desinteressada e mais afetuosa, Que prende a sombra ao corpo e prende ao galho a rosa;

Exemplo: o amor das mães; o ideal da verdade Perante Epaminondas; A oscilação constante e perenal das ondas, As imutáveis leis

Que regem o fatal sistema planetário; A crença do templário... A embriaguez dos reis!... Passaram tempos... uma vez, o amigo

Do venturoso cão, Tendo de viajar, por terra, diz consigo: Levarei o Sultão. E partiram os dois, tranquilos, silenciosos,

Unidos e sozinhos; Atravessando a nado os rios caudalosos, Dilacerando os pés na sarça dos caminhos... O dono ia buscar, ditosa criatura!

A inesperada herança, De um tio, que ao baixar à fria sepultura Tivera-o na lembrança. E o cão, o cão fiel, contente e satisfeito

Por estar a seu lado, Disfarçava o cansaço, a fome, e de bom grado Velava toda a noite em torno do seu leito. De volta para casa,

Pousaram no caminho, à beira d’uma estrada. O dono, que trazia a herança cobiçada, Sentia um anjo mau roçar-lhe a ponta d’asa... O anjo da ambição!

— Levantava no ar castelos fabulosos!... Via baixelas d’ouro em deslumbrantes mesas... Mulheres ideais em leitos voluptuosos... Amigos em tropel, servos em profusão;

Conquistas nos salões, encontros ao luar... Orgias de duquesas! Festins de Baltazar!... Assim que amanheceu,

Levantou-se nervoso, inquieto, aborrecido, Como um homem que espera alguém que se demora E ouvindo passos fora Reconhece não ser ainda quem procura...

Monta a cavalo, parte... E o cão, o pobre cão, Que passou toda a noite a lhe velar o sono, Não recebe um olhar, um gesto de seu dono, Que da louca ambição na febre que o tortura

De tudo se esqueceu... Ai mísero Sultão! O fiel companheiro, Lendo talvez no olhar raivoso do senhor

A rápida mudança, Que lhe inspirava medo e lhe causava dor; Ao ver ficar na relva o saco de dinheiro Investe alucinado e resoluto avança:

A saltar e a latir... Com o olhar em lava! Procurando impedir O passo do animal que o dono cavalgava...

Na impotência fatal de lhe dizer então Em alta voz: “Senhor! olha-me, escuta, espera... A tua ingratidão Enche-me de pesar, mas não me desespera;

“O que me faz sofrer É não ter nem sequer a mímica de um mudo, N’este instante cruel em que abandonas tudo, Até mesmo o dinheiro

Que te fez esquecer este fiel rafeiro!” O dono, que seguia Ao trote do animal, Mergulhado n’um mar de mera fantasia...

Arrancado de chofre à rede imaginária, — Essa teia ideal — Onde a quimera embala e prende os sonhadores, Não pôde resistir à raiva involuntária:

E n’um d’esses repentes Que tiram a razão aos calmos pensadores, Avança contra o cão (que humilde, suplicante, Corre a lamber-lhe os pés...)

Impetuoso, cruel, na fúria dos dementes, Dá-lhe um tiro! mais outro... e o arroja distante A duros pontapés!... O mísero animal

Lambia, uivando triste, o sangue das feridas, Caído sobre o seco, inóspito areal... De vez em quando, erguia as vistas doloridas P’ra o lugar onde estava o saco de dinheiro;

Depois — relanceava o doloroso olhar Para as bandas por onde o dono ingrato e louco Sumiu-se pouco a pouco... Assim como o sombrio e triste forasteiro

Que em vão procura ver o teto de seu lar!... E o bárbaro senhor, Já bem longe d’aí, sombrio como Otelo, (Como quem acordou de um longo pesadelo,

Que inda causa-lhe horror) Lembra-se comovido Do mísero Sultão — aquele bom amigo, Discreto, estremecido e sempre bem disposto,

Que não trepidaria em face d’um perigo: Contanto que o livrasse assim d’algum desgosto... No espírito humano, Passado o atroz momento

Do ódio, da vingança, ou desespero insano, É que surge o remorso... o arrependimento! D’essa forma também Depois da tempestade é que a bonança vem.

Mal tinha se apeado, Mesmo antes de abraçar esposa e filhos seus, Lembrou-se o desgraçado Do saco de dinheiro... ó poderoso Deus!...

Como tremem de medo As almas infantis, ao acordar no escuro... Como batem d’encontro ao parapeito duro De escarpado rochedo

Os vagalhões do mar, que os ímpetos do vento Erguem em turbilhões ao alto firmamento, Ou cavam no profundo abismo subterrâneo... Assim, n’aquele crânio,

A dúvida e o remorso, em negra confusão, Turbavam-lhe a razão!... Sombrio, desvairado, Louco, em febre, em delírio, e surdo e cego e mudo,

Salta sobre o cavalo e parte, alucinado, Pensando em nada... em tudo! O possante animal encara o vasto espaço... E sai, mascando o freio, aos saltos, aos arrancos,

Assim como os potrancos Que sentem no pescoço a cócega do laço!... Não correm mais depressa os ventos no Oceano!... Era um galope insano!

Erguiam-se do chão, em espirais fantásticas, Densas nuvens de pó... Pareciam elásticas As patas do cavalo!... A crina, solta ao vento, Trazia ao pensamento

A ideia fascinante Do penacho ideal do gorro d’um gigante!... De súbito, porém, O animal empaca; empina-se... recua...

E sem alento cai!... No azul etéreo, a Lua Vinha surgindo além... Rubras manchas de sangue, E sangue ainda morno, estavam sobre o chão...

O homem decifrou o misterioso enigma Que o desditoso cão Deixara ali, talvez já moribundo, exangue, Como fatal estigma!...

Seguiu silencioso, O rastro ensanguentado: o rastro ia direito Até esse lugar onde ele havia feito O derradeiro pouso.

Um raio de luar — qual baço candeeiro — Se estendia no chão... Via-se sobre a relva o saco de dinheiro, E a seu lado, já frio — o corpo do Sultão!...

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