Passei entre ovações por baixo das arcadas, D’onde pendem lauréis de viridentes flores; E volto, sem trazer nem um d’aqueles nadas, Que enchem o coração dos moços sonhadores.
Em noites estivais, silentes, luminosas, Quando o azul do espaço é um jardim de estrelas... Eu colhia com ela as mais purpúreas rosas, Cantando distraído umas canções singelas...
E íamos os dois, sem mais ninguém, sozinhos, Entre os galhos em flor do trêmulo arvoredo: Dormiam em silêncio os pássaros nos ninhos... Dormia o nosso amor na sombra do segredo!...
Mas, uma vez... parando ao pé d’um grande lago, Que parecia ser do céu um dos espelhos... Nos grandes olhos d’ela eu vi um brilho vago! Beijei-a, me prostrando, humilde, de joelhos.
Ela ficou vermelha... e tímida, assustada, Disse-me... nem eu sei o que ela disse a esmo! — Só posso me lembrar que a luz da madrugada Ainda nos achou n’aquele sítio mesmo.
Depois, eu me ausentei d’ali por muitos anos, Correndo, como um louco, em vão, atrás da glória... Fui com aspirações: voltei com desenganos! Eis qual do meu passado a resumida história.
Mas sempre, em toda a parte — aqui...além...mais longe... Eu via a imagem d’ela em todo o meu caminho: Gozasse como um rei, sofresse como um monge, Jamais aquele amor deixava-me sozinho!...
Fui, pensativo e só, bater um dia à porta, Aonde tanta vez eu lhe beijara a mão!... Vi no meio da sala — uma pessoa morta... E umas velas de cera à roda d’um caixão...
Quis entrar, mas meus pés, ao assoalho presos, Pesavam como chumbo... Eu pressentia tudo! Os conhecidos meus fitavam-me surpresos, Como loucos olhando à toa para um mudo.
Era uma noite fria; um denso nevoeiro Caía sobre o chão das solitárias praças; Uivavam tristemente os cães pelo terreiro... Gemia a viração nas frestas das vidraças!...
Enfim, a muito custo, após um grande esforço, Consegui penetrar no fúnebre recinto: A dúvida é talvez mais negra que o remorso! E eu era ali — o herói da Noiva de Corinto...
A um canto do salão chorava uma senhora, Sem que entre os mais alguém ousasse erguer a fala; ’Stavam sobre o piano as músicas — que outr’ora Eu a ouvia tocar, n’aquela mesma sala...
Vi seu corpo gentil, escultural, perfeito, Branco e frio estendido à claridão das velas; Tinha as mimosas mãos unidas sobre o peito... E um lenço, como um véu, por sobre as faces belas!...
Chorei!... Reguei de pranto as flores derradeiras Da minha mocidade — ali amortalhada Ela me despertara as ilusões primeiras, Sem ela n’este mundo eu via-me sem nada!...
Ergui, sabe Deus como, o lenço de cambraia... Um raio lampejou! — cintilações fatais!... O silêncio é a dor. O homem que desmaia, Embora torne a si, não vive nunca mais...
Eis porque sinto em mim um mórbido cansaço, Um tédio sem igual... — atroz melancolia! Como se de um gigante o musculoso braço Estivesse a apertar meu peito noite e dia!...
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