Amar aos vinte e dois anos
E ser poeta, mulher,
É um desvendar de arcanos
Que os não desvenda qualquer!...
É um desliar de bagas
De um colar feito de chagas
Abertas no coração...
Um fulgir de vagalumes,
Com tantos brilhos, tais lumes,
Que nos deslumbra a razão!...
Assim, em louca cegueira,
N’essa voragem fatal,
Noss’alma vai de carreira
Bater às portas do mal...
E como a leve falena
Queimando as asas sem pena
Em derredor de uma luz,
Em busca de primaveras,
Vai, tropeçando em quimeras,
Cair nos braços da cruz...
Amar — é viver, sozinho,
Tendo alguém perto de si;
Ser pombo, fazer o ninho:
E a rolinha sempre ali!...
É um nunca fechar de braços,
Que se trocam em abraços
Que estreitam dois corações;
Um turbilhão de desejos
Que se desmancham em beijos...
E passam como ilusões!...
Amar — é fechar os olhos
E ver-se o que não se vê...
É caminhar entre abrolhos,
Colhendo grinaldas!... e...
Depois... não sei; mas, eu penso
Que a gente fica suspenso
Por asas de um querubim!
E vai voando... voando...
Por entre estrelas passando...
N’aquelas plagas sem fim!
Amar — assim como eu amo
É um delírio talvez!
Uma loucura não chamo,
Pois louco não sou, bem vês;
Mas... há por força um mistério
N’esse não sei quê de etéreo
Que não sei d’onde há de vir...
Umas atrações de abismo,
Uns fluidos, um magnetismo
Que sentimos... sem sentir!...