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1857–1926

Sonâmbulas IV – Amar

Múcio Scevola Lopes Teixeira

Amar aos vinte e dois anos E ser poeta, mulher, É um desvendar de arcanos Que os não desvenda qualquer!...

É um desliar de bagas De um colar feito de chagas Abertas no coração... Um fulgir de vagalumes,

Com tantos brilhos, tais lumes, Que nos deslumbra a razão!... Assim, em louca cegueira, N’essa voragem fatal,

Noss’alma vai de carreira Bater às portas do mal... E como a leve falena Queimando as asas sem pena

Em derredor de uma luz, Em busca de primaveras, Vai, tropeçando em quimeras, Cair nos braços da cruz...

Amar — é viver, sozinho, Tendo alguém perto de si; Ser pombo, fazer o ninho: E a rolinha sempre ali!...

É um nunca fechar de braços, Que se trocam em abraços Que estreitam dois corações; Um turbilhão de desejos

Que se desmancham em beijos... E passam como ilusões!... Amar — é fechar os olhos E ver-se o que não se vê...

É caminhar entre abrolhos, Colhendo grinaldas!... e... Depois... não sei; mas, eu penso Que a gente fica suspenso

Por asas de um querubim! E vai voando... voando... Por entre estrelas passando... N’aquelas plagas sem fim!

Amar — assim como eu amo É um delírio talvez! Uma loucura não chamo, Pois louco não sou, bem vês;

Mas... há por força um mistério N’esse não sei quê de etéreo Que não sei d’onde há de vir... Umas atrações de abismo,

Uns fluidos, um magnetismo Que sentimos... sem sentir!...

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