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1857–1926

Páginas de Boêmia – XVIII Parêntesis

Múcio Scevola Lopes Teixeira

Muito embora procurem separar-nos, Tu sempre serás minha... eu sempre teu! Somente a morte poderá roubar-te Do peito meu.

Amei-te e tu amaste-me. Juntámos Nossas almas e o nosso coração; Fundimos em um só nossos espíritos N’essa paixão.

Teu peito palpitou contra meu peito, Teus lábios apertei aos meus... e bem! Unidos desmaiamos... revivemos Juntos também!

Se fosses tu a cortesã das salas, Que não sente emoções quando nos beija, Se fosses tu a meretriz das praças, Que o corpo mercadeja;

Então, sim, poderias esquecer-me No mesmo instante em que eu saísse: e morta De ambição — te entregares ao primeiro Que batesse à tua porta...

Mas tu não és a cortesã sem alma, Que jura amar-nos quando nada sente; Não és tampouco a messalina torpe, Vil, — impudente!

És a mulher inteligente e bela, Que amou, mais que ao mancebo, ao sonhador! A Musa de um Poeta! a irmã dos anjos... Anjo de amor!...

Tu me inspiraste uma afeição sincera, Cheia de crenças, esperança e glória, Não d’essas afeições que se evaporam Na vida transitória.

É um amor profundo, imenso, eterno, Profundo, imenso, eterno — como o céu!... Amor que há de ir conosco pela vida Ao chão do mausoléu.

Não foras tu, Senhora! tão formosa, Não foras como os anjos do Senhor, Ó mimo do meu Deus! eu não te amara Com tanto amor!...

Tu’alma da minh’alma é irmã gêmea, Teu coração foi feito para o meu: Ambos são tão iguais, que, se os juntassem, Qualquer seria o meu.

Qualquer; mas, se em teu peito por acaso Fosse o meu coração ficar trocado, Desde então tu — serias mais sensível... Eu — menos desgraçado!...

Eu caminhava triste pela vida, Como o hebreu das santas Escrituras, Sem flores em redor, sem uma estrela Brilhando nas alturas...

E tu passaste... A tatear, na sombra, Segui o rastro de teus pés divinos: Mandei-te no crepúsculo a minh’alma, Nas brisas os meus hinos!

Bem como a rola distendendo as asas, Para estreitar o pombo em efusão, Abriste-me os teus braços, os teus seios... Teu manso coração!...

Como eras boa e como eu era amante! Nossa vida era um sonho de ternuras; Que sede, que desejos, que delírios... Mulher! quantas loucuras!...

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