Se eu morrer amanhã, ó meu amigo, Pega n’uma das alças do caixão, E não deixes ninguém jogar comigo, Como um fardo lançado n’um porão.
E lá... à fresca sombra do cipreste, Onde vamos por fim todos dormir, Faze um discurso (mesmo que não preste) Mas — que não faça o auditório rir.
Dize que a nossa pátria desditosa Vê comigo baixar ao mausoléu A estrela mais fulgente e luminosa Que apenas despontava em pleno céu...
E que eu fui econômico e sisudo, Que duravam-me um mês os meus botins; Que podia morrer mais barrigudo, Embora não comesse em botequins.
E que eu fui um luzeiro da ciência, Isso não, porque podem se espantar... Que conservei intacta a inocência, E nem sabia até — jogar bilhar!
E que fui inimigo das mulheres... E que nunca voei do asas de pau... Ora! dize inda mais, o que quiseres: Pois sabes que não há defunto mau.
E depois, quando a enxada do coveiro Puxar a terra para o meu caixão, Escreve p’ra o meu leito derradeiro Esta inscrição:
— Aqui jazem os restos de um poeta, Que não morreu de frio nem de fome; Julgando a sepultura uma indiscreta, Não quis dizer-lhe nem sequer seu nome.
Nasceu no dia tal, às tantas horas, Como nasce qualquer burguês ou conde; Requestou raparigas e senhoras... E, sem pagar imposto, andou de bond.
Agora que o cantor bateu a bota E contra a fidalguia já não berra: Pobre vate! — antes fosse um agiota, Que é só quem é profeta n’esta terra. —
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