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1857–1926

Páginas de Boêmia – V A viscondessa

Múcio Scevola Lopes Teixeira

Assim que o trem partiu, senhora viscondessa, Notou que fui postar-me à porta do wagon? Pois bem! é que eu sentia o inferno na cabeça E em vão dizia: além! vamos ao ermo, alons!

É que eu sentia em mim a falta da saúde E da conservação o pronunciado instinto Ergue-se dentro em nós d’uma maneira rude, Tentando reviver todo o vigor extinto.

Sei que em tempos de treva, em tempos d’ignorância, O doente invocava — o sobrenatural... E o sacerdote, ao fim da mais teimosa instância, Curava o corpo enfermo e a afecção moral.

Pitágoras, Platão, Empédocles e Tales, Constituíram mais tarde a base da razão: Começou a ciência a debelar os males, Cedendo à medicina a divinal missão.

Seiscentos anos já antes de Jesus-Cristo, Herófilo chegou a defini-la assim: “O estado anormal do corpo, a causa d’isto. Altera-lhe a saúde e transforma-o por fim.”

Nessa definição sucinta a ideia é lógica Da história natural que aí se denuncia: Ha uma causa anatômica, uma ação patológica, Terapêutica, higiene — e fisiologia.

Sabe que sobre o corpo influi a atmosfera, Esteja rarefeita ou mesmo condensada, A Corte, úmida o quente, o nosso estado altera E eu sentia a saúde aos poucos transtornada.

Metemo-nos os dois no trem das quatro e meia E fomos para fora, afim de tomar ares: Sentou-se à nossa esquerda uma alta inglesa feia, Com os olhos da cor do pano dos bilhares.

Atrás, um português mostrava uns a pedidos Do Jornal do Comércio a uns alemães vermelhos: Enquanto uma francesa os dedos mui compridos Passava por um cão que tinha sobre os joelhos.

Uns dandys, de pastinha e lenço cor-de-rosa, Falavam entre si, com risos indiscretos; Fitava-os em silêncio uma senhora idosa, Que não largava as mãos dos pequeninos netos.

O monstro de metal movia os musc’los d’aço, Com a viva rapidez das máquinas modernas; E um penacho de fumo erguia-se no espaço, Escuro como o bojo informe das cavernas.

Em pleno século XI os Belgas aplicaram O combustível forte, o mineral precioso, Que, dentro da fornalha apenas o queimaram, Impregnou o ar de um cheiro betuminoso.

O silvo atroador, frenético, vibrante, Cortava a solidão com frêmitos febris!... Trazendo-me à lembrança os gritos de um gigante, Ou os hinos ao sol — na taba dos tupis.

O ar do descampado, oxigenado, higiênico, Fresco como as manhãs esplêndidas de outubro, Varreu-me da cabeça apreensões de anêmico, Escorvou-me os pulmões: fiquei alegre e rubro.

O ar, bem sabe, é o gás que forma a atmosfera, E o meio constitui que tudo desenvolve; Leva a semente à planta, a flor à primavera, Vapores absorve e em água se dissolve.

Torricelli alcançou verificar-lhe o peso: O barômetro atesta essa verdade ingente; Submetem-no à pressão? — permanece em desprezo... E é ele quem o som propaga velozmente.

O ar!... pois bem; é ele o único remédio Que debela de todo a hipocondria atroz, A tristeza sem causa... o indefinido tédio, Que às vezes, sem sentir, sentimos dentro em nós.

Tive ímpetos então histéricos, nervosos, Vontade de correr, de rir e de gritar... Crispavam-me a epiderme uns fluidos voluptuosos, Magnéticos bem como a luz do seu olhar.

De súbito, porém, n’um ambiente morno O trem diminuiu de força e rapidez: E o túnel, abafado, escuro como um forno, Era um antro de horror, de sombras e mudez.

Foi um instante só; de novo a luz e o ar Deram mais rapidez à marcha interrompida. Vinha tombando a sombra... e a luz crepuscular Trouxe-me uma tristeza imensa, indefinida.

A mudez do crepusc’lo e a paz do isolamento Impunham um terror solene e religioso... E ao ver vossa excelência ali, n’esse momento, Quase a chorar de dor... sorri-me venturoso!

Chegámos à estação. Estava à nossa espera Um pajem de libré e botas de verniz, O mesmo que seguiu nos fins da primavera Seu falecido esposo a Londres e Paris...

Ele, assim que nos viu, correu em direitura Da carruagem inglesa, e rápido, veloz, Fustigou os corcéis, altos, de cor escura, Parando n’um instante o carro junto a nós.

Entrámos no caleche; os animais possantes, Sorvendo a exalação das plantas orvalhadas, Saíram a galope, altivos, ofegantes, Soltas à viração as crinas agitadas!...

Então, vossa excelência, exausta de cansaço, Pendendo no meu ombro a fronte escultural, Nem via o meu olhar cair no seu regaço... Sonâmbulo, dormente, opiado, sensual!...

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