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1857–1926

IX Na estância

Múcio Scevola Lopes Teixeira

De manhã cedo, quando as aves trinam, E a cerração nos descampados dorme... Saltar de cima do lombilho e logo Lavar o rosto na lagoa enorme...

Ir ao curral, e, mesmo na porteira, Uma guampa beber de leite quente; Sovar a palha e ir picando o fumo, A conversar com essa boa gente...

Encilhar o matungo, ir no tranquilo Dar uma volta por aqueles pagos... E na venda mais próxima apeando Cantar ao violão, tomando uns tragos...

Depois voltar ao rancho ou ao sobrado, Tanto n’um como n’outro há boas gente; E na rede suspensa de dois caibros Saborear um chimarrão bem quente...

Em seguida, na mesa da varanda, Tendo a faca de ponta na bainha, Deixar esta na cinta e com aquela Comer churrasco gordo com farinha...

Dormir ao meio dia um sono à sesta, Debaixo da ramada verdejante; E despertar aos gritos do moleque, Que anuncia a comida fumegante...

Jantar feijão com charque, carne fresca, Costeletas de porco, arroz da terra; E após a sobremesa de canjica Passear ‘té sol posto pela serra...

Eis a vida que levam dia a dia Os robustos e bons estancieiros, Que se têm luxo — é só na prataria Com que arreiam os ágeis parelheiros...

E a pescaria à noite? e as cantigas De analfabeto e rude menestrel, Que improvisa bons versos, sem que saiba Nem escrever seu nome n’um papel?

E os olhados gentis da mulatinha, Que os dedos nos aperta ao dar o mate?... E depois...desfalece na viola, Com saudades talvez d’algum mascate...

E os sorrisos ingênuos da morena, A quem chamam Chinoca ou Inhazinha? E as proezas dos moços caçadores?... E as histórias da trêmula velhinha?...

... Eu gosto d’essa vida ignorada, Que passam nas estâncias meus patrícios; Longe das multidões, longe dos vícios, Aos lúgubres mugidos da boiada.

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