Mas que novo segredo Amor me inspira!
Que sabias regras, que preceitos novos!
Filho de Vênus, e de Marte filho,
De teus altos mistérios serei vate!
Forma novos oráculos em Cipro;
Por eles tenha esquecimento Delfos.
Namorado mancebo, Amor te fala,
Ouve com filial respeito as vozes.
Posto que tu na cena Dóris ouças,
Altos prodígios, maravilhas novas,
A voz soltando bela, e sonorosa
Com que suspenda sibilantes ventos,
Não pasmes, nunca chores, ser não queiras
Réu desditoso de tão negro crime;
Cheia Tirse de inveja, não perdoa,
Mais depressa seria o mar estável.
A nação feminil sustenta sempre
Entre si crua sanguinosa guerra:
Inda no berço brandamente dorme,
Inda c’o leite maternal se nutre,
Já da cova sombria o negro monstro
Que come verdes enroscadas serpes,
Salta com Venenosa língua, e lambe
Seu terno peito, seu formoso rosto;
Na boca lhe vomita cru veneno,
Que para o brando coração lhe corre,
E nas veias sutis introduzido,
C’o rubro sangue lhe circula, e pulsa;
Não só famílias com famílias rompem
A paz benigna, que na terra expira;
Entre as mesmas irmãs se acende a guerra,
Por isso é hoje negro seixo Aglaura.
Até nos céus o vago monstro gira,
Minerva, e Juno fez rivais de Vênus;
Não caíram troianos altos muros,
Só porque Paris foi roubar Helena!
Mil adúlteros tinham sem castigo
Furtado esposas, maculado leitos:
No pomo da Discórdia veio envolta
A faísca fatal, que abrasou Troia.