Manuel Maria Barbosa l'Hedois du Bocage
Crê pois, meu doce bem, meu doce encanto, Que te anseiam fantásticos terrores, Pregados pelo ardil, pelo interesse. Só de infestos mortais na voz, na astucia
A bem da tirania está o inferno. Esse, que pintam báratro de angustias, Seria o galardão, seria o premio Das suas vexações, dos seus embustes,
E não pena de amor, se inferno houvesse. Escuta o coração, Marília bela, Escuta o coração, que te não mente: Mil vezes te dirá: “Se a rigorosa
Carrancuda opressão de um pai severo, Te não deixa chegar ao caro amante Pelo perpetuo nó, que chamam sacro, Que o bonzo enganador teceu na ideia
Para também no amor dar leis ao mundo; Se obter não podes a união solene, Que alucina os mortais, porque te esquivas Da natural prisão, do terno laço
Que com lágrimas, e ais te estou pedindo? Reclama o teu poder, os teus direitos Da justiça despótica extorquidos: Não chega aos corações o jus paterno,
Se a chama da ternura os afogueia: De amor há precisão, há liberdade; Eia pois, do temor sacode o jugo, Acanhada donzela; e do teu pejo
Destra iludindo as vigilantes guardas, Pelas sombras da noute, a amor propícias, Demanda os braços do ansioso Elmano, Ao risonho prazer franqueia os lares.
Consista o laço na união das almas; Do ditoso himeneu as venerandas Caladas trevas testemunhas sejam; Seja ministro o Amor, e a terra templo
Pois que o templo do Eterno é toda a terra. Entrega-te depois aos teus transportes, Os opressos desejos desafoga. Mata o pejo importuno; incita, incita
O que, só de prazer merece o nome. Verás como, envolvendo-se as vontades, Gostos iguais se dão, e se recebem: Do jubilo há de a força amortecer-te,
Do jubilo há de a força aviventar-te. Sentirás suspirar, morrer o amante, Com os seus confundir os teus suspiros, Hás de morrer, e reviver com ele.
De tão alta ventura, ah! não te prives, Ah! não prives, insana, a quem te adora.” Eis o que hás de escutar, oh doce amada, Se à voz do coração não fores surda.
De tuas perfeições enfeitiçado Ás preces, que te envia, eu uno as minhas. Ah! Faze-me ditoso, e sê ditosa. Amar é um dever, além de um gosto,
Uma necessidade, não um crime, Qual a impostura horríssona apregoa. Céus não existem, não existe inferno, O prêmio da virtude é a virtude,
É castigo do vicio o próprio vício.
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