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1765–1805

II

Manuel Maria Barbosa l'Hedois du Bocage

Oh Deus, não opressor, não vingativo, Não vibrando co’a destra o raio ardente Contra o suave instinto, que nos deste; Não carrancudo, ríspido arrojando

Sobre os mortais a rígida sentença, A punição cruel, que excede o crime, Até na opinião do cego escravo. Que te adora, te incensa, e crê qu’és duro!

Monstros de vis paixões, danados peitos Regidos pelo sôfrego interesse (Alto, impassivo númen!) te atribuem A cólera, a vingança, os vícios todos,

Negros enxames, que lhe fervem n’alma! Quer sanhudo ministro dos altares Dourar o horror das barbaras cruezas, Cobrir com véu compacto e venerando

A atroz satisfação de antigos ódios, Que a mira põem no estrago da inocência, Ou quer manter aspérrimo domínio, Que os vaivéns da razão franqueia, e nutre:

Ei-lo, em santo furor todo abrasado, Hirto o cabelo, os olhos cor de fogo, A maldição na boca, o fel, a espuma, Ei-lo, cheio de um Deus tão mau como ele,

Ei-lo citando os hórridos exemplos Em que aterrada observe a fantasia Um Deus o algoz, a vítima o seu povo: No sobr’olho o pavor, nas mãos a morte,

Envolto em nuvens, em trovões, em raios De Israel o tirano omnipotente; Lá brama do Sinai, lá treme a terra! O torvo executor dos seus decretos,

Hipócrita feroz, Moysés astuto, Ouve o terrível Deus, que assim traveja: “Vae, ministro fiel, dos meus furores! Corre, voa a vingar-me: seja a raiva

De esfaimados leões menor que a tua: Meu poder, minhas forças te confio, Minha tocha invisível te precede: Dos ímpios, dos ingratos, que me ofendem,

Na rebelde cerviz o ferro ensopa: Extermina, destrói, reduz a cinzas As sacrílegas mãos, que os meus incensos Dão a frágeis metais, a deuses surdos:

Sepulta as minhas vítimas no inferno, E treme, se a vingança me retardas!...” Não lh’a retarda o rábido profeta; Já corre, já vozeia, já difunde

Pelos brutos, atônitos sequazes A peste do implacável fanatismo: Armam-se, investem, rugem, ferem, matam, Que sanha! que furor! que atrocidade!

Foge dos corações a natureza; Os consortes, os pais, as mães, os filhos Em honra do seu Deus consagram, tingem Abominosas mãos no parricídio:

Os campos de cadáveres se alastram, Sussurra pela terra o sangue em rios, Troam no polo altíssimos clamores. Ah! Bárbaro impostor, monstro sedento

De crimes, de ais, de lagrimas, d’estragos, Serena o frenesi, reprime as garras, E a torrente de horrores, que derramas, Para fundar o império dos tiranos,

Para deixar-lhe o feio, o duro exemplo De oprimir seus iguais com férreo jugo; Não profanes, sacrílego, não manches Da eterna divindade o nome augusto!

Esse, de quem te ostentas tão valido, É Deus do teu furor, Deus do teu gênio, Deus criado por ti, Deus necessário Aos tiranos da terra, aos que te imitam,

E aqueles, que não creem que Deus existe.

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