Se, lascivos do mundo, amais sem arte,
Lede meus versos, amareis com ela.
Tu, louro Apolo, me tempera a lira,
Tu, branda Vênus, a cantar me ensina.
Quanto nos reinos de Plutão deseja
Tântalo ardente mitigar a sede;
Quanto suspira Prometeu, que Jove
Os duros ferros, com que o prende, rompa;
Tanto deseja a feminina turba
Ao corpo varonil unir seu corpo;
Tanto suspira por que mão lasciva
Meiga lhe toque nas colunas lisas,
E que mimoso, petulante dedo
Lhe amolgue os tesos seus virgíneos peitos.
Em Junho ardente pelo seu consorte
Clama, suspira em verde ramo a rola;
Em gelado Janeiro clama triste
A doméstica tigre por marido:
Brama nos campos em sereno Maio
Mansa novilha por amado touro.
Sabia Natura o débil sexo excita,
Torpes desejos com ardor provoca:
Mas sempre firme, e simulada nega
Carnal impulso geração de Pirra.
Busca Diana Endimião nos bosques,
Mas finge ousada perseguir as feras;
Ardente Vênus só prazer respira,
Mas seus favores solicita Marte;
Serrana humilde reclinar deseja
Nos doces braços de um Vaqueiro o colo;
Mas d’ele foge, na montanha, esquiva,
Com ele o baile festival recusa.