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1765–1805

I

Manuel Maria Barbosa l'Hedois du Bocage

Pavorosa ilusão da Eternidade, Terror dos vivos, cárcere dos mortos; D’almas vãs sonho vão, chamado inferno; Sistema da política opressora;

Freio, que a mão dos déspotas, dos bonzos Forjou para a boçal credulidade; Dogma funesto, que o remorso arreigas Nos ternos corações, e a paz lhe arrancas:

Dogma funesto, detestável crença, Que envenenas delicias inocentes, Tais como aquelas que no céu se fingem: Fúrias, Cerastes, Dragos, Centimanos,

Perpetua escuridão, perpetua chama, Incompatíveis produções do engano, Do sempiterno horror terrível quadro, (Só terrível aos olhos da ignorância)

Não, não me assombram tuas negras cores, Dos homens o pincel, e a mão conheço: Trema de ouvir sacrílego ameaço Quem d’um Deus quando quer faz um tirano:

Trema a superstição; lagrimas, preces, Votos, suspiros arquejando espalhe, Coza as faces co’a terra, os peitos fira, Vergonhosa piedade, inútil vênia

Espere ás plantas de impostor sagrado, Que ora os infernos abre, ora os ferrolha: Que ás leis, que as propensões da natureza Eternas, imutáveis, necessárias,

Chama espantosos, voluntários crimes; Que as ávidas paixões, que em si fomenta, Aborrece nos mais, nos mais fulmina: Que molesto jejum, roaz cilicio

Com despótica voz à carne arbitra, E, nos ares lançando a fútil bênção, Vai do grã tribunal desenfadar-se Em sórdido prazer, venais delicias,

Escândalo de Amor, que dá, não vende.

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