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1765–1805

EPÍSTOLA V

Manuel Maria Barbosa l'Hedois du Bocage

Alzira, sou feliz!... Quanto te devo!... Das tuas instruções é tal o fruto. Quanto encarava em torno era a meus olhos De lúgubres ideias feio quadro:

Tudo o que vejo agora alegres, vivas, Imagens prazenteiras, me suscita. Os ternos sentimentos, que provava, Mil vezes combinando com ditames

Que desde a infância sempre m’inspiraram; Mil vezes refletia que dos homens, Ou de um tirano Deus era ludibrio: Conceber não podia que existisse

Para experimentar contínua luta Entre impressões da própria natureza, E princípios chamados da virtude. No pélago de embates tão terríveis

Flutuando implorei o teu auxilio; Meu coração te abri: tu leste n’ele O que eu nem mesma deslindar sabia. Tu me ensinaste a ver quanto fingidos

Os homens são, nas vozes, e nos gestos: Rasgaste aos olhos meus mascara infame Com que tem de uso todos encobrir-se; Das bordas me salvaste de um abismo,

Onde a infeliz Olinda ia arrojar-se, Perdoa, Deus imenso! Eu blasfemava Contra a tua justiça; eu te supunha Autor do mal, que os homens maquinavam;

Cria-te inconsequente, e despiedado, Pois sentimentos me imprimiras n’alma Que ás tuas leis contrários me pintavam!... Tu foste, Alzira, foste a que lançaste

Um brilhante clarão ante os meus passos... Finalmente aprendi que a singeleza Do mundo era banida, e o seu império Os homens tinham dado à hipocrisia.

Ruins!... Amor por crime afiguravam, E nem um só de amor vivia isento!... Para eles não é crime um crime oculto, Porque a simulação reina em sua alma,

Porque o remorso abafam em seu peito. Amor um crime!... Os gostos mais completos, E os mais puros deleites o acompanham: Se a ventura maior se une ao delito,

Quem há que se não diga delinquente? D’entre as delicias, que gozei, querida, Com as tuas lições fugiu o crime. Eu não senti no coração bradar-me

A voz d’esse pesar, sequaz da culpa: No meio dos prazeres, que gostava, Graças rendi a um Deus, que m’os concede: Se ele troveja sobre os criminosos,

Nunca os seus raios menos me assustaram!... Um amante acabou o que encetaste; Ele, cujo olhar meigo me assegura As doces qualidades, que o adornam,

Afastou-me do espirito receios, Que de mau grado combatia ainda. Reinava em seus discursos a franqueza, E o fogo, que brilhava nos seus olhos,

Que o rosto lhe incendia, em seus transportes Que eram nascidos d’alma, me dizia: O labéu da impostura o não denigre; Não é como o dos outros seu caráter;

Ingênuo, afável, ah! prezada Alzira! Se tão amável é o teu Alcino, Ninguém como eu e tu é tão ditoso!... Pouco preciso foi para vencer-me:

Não teve que impugnar loucos caprichos, Com que ufanas amantes dificultam O mutuo galardão, que amor exige: Se amor ambos int’ressa, e ambos colhemos

Seus mimosos favores, porque causa Havia de indif’rença dar indícios, Quando o meu peito, ansioso, palpitava? Se eu o levava da ventura ao cume,

Não me dava ele a mão para segui-lo? Sim; nos seus braços, me arrojei sem custo; E se o pudor as faces me tingia, Inda as chamas d’amor mais me abrasavam.

Eu nadava em desejos indizíveis; E quantos beijos recebia, tantos Cheios de igual fervor lhe compensava: Seus lábios inflamados ateavam

As doces labaredas, em que ardia, E meus lábios, aos lábios seus unidos, Sensações recebiam deleitosas, Que me filtravam pelo corpo todo...

Tão grandes emoções exp’rimentava, Que a tanto gosto eu mesma sucumbia! Presa a voz na garganta, não sabendo Nem já podendo articular palavra,

Respirando ansiada, e com veemência, Os meus sentidos todos confundidos, Sem nada ouvir, nem ver, apenas dando Sinais de vida, de prazer morria.

Exceto o meu amante, em tais momentos Longe da ideia tinha o mundo inteiro: O mundo inteiro então forças não tinha Para do meu amante desprender-me.

Debalde ante meus passos furibundo Monstro espantoso vira: em vão lançara Do aberto seio a terra ondas de fogo; Em vão coriscos mil o céu vibrara;

Dos braços do amante em tais momentos. Nada, nada podia arrebatar-me. Oh quem podera, Alzira, descrever-te Que êxtase divinal veio pôr termo

A tais instantes de suaves gostos!... Isto pode sentir-se, e não dizer-se... Agora, e só agora me parece Que começo a existir: reproduziu-se

Uma total mudança na minha alma. O mundo para mim já tem encantos; Sob outras cores vejo mil objetos, Que a fantasia me pintou tristonhos:

Propicio Amor abriu-me os seus tesouros, A Natureza seus tesouros me abre: Tudo te devo, amiga; em todo o tempo A teus doces conselhos serei grata:

Oxalá ditas tantas saboreies Quantas por ti, querida, eu própria gozo! Oxalá sintas com Alcino os gostos, Que eu exp’rimento, de um amante ao lado!

Nem ventura maior posso augurar-te, Porque maior ventura haver não pode.

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