Nem uma voz humana pelo espaço! De angústia ao menos!... Porém, não, aos pouco, Tropel confuso fez-se ouvir nos ermos; Gritos, clamores, tresloucados cantos,
Imprecações tremendas, acordaram Os ecos dissonantes; surdo estrondo De duras patas, de pesadas rodas Abalaram o solo: dir-se-ia
Que um poderoso exército voltava De prolongadas, férvidas pelejas, Vencedor, mas cansado. Em pouco tempo, Grandes estradas, tortuosas sendas,
Atalhos desiguais, eram cobertos Do buliçosas, palradoras turbas; Velhos, mancebos, grandes e pequenos, Trajando vestes das mais vivas cores,
Uns a pé, carregando ao ombro os filhos, Outros graves, sisudos, cavalgando Tardos jumentos; prazenteiros outros Sobre pesados carros, atulhados
De negras arcas, de grosseiros sacos; Estes rindo e cantando os doces cantos De seu país natal, narrando aqueles Lendas singelas, inocentes casos
Às lindas companheiras de jornada. Os anciãos silentes, as crianças Pulando alegres, sem sentir ao menos Os rigores do inverno, caminhavam
Ao longo do deserto. Atrás, bem longe Da multidão ruidosa, lentamente, Do bom marido aos ombros arrimada,
Maria viajava. — Melindroso Era então seu estado, já na quadra Em que o tempo decreta a angustiosa Dor da maternidade; mas seu rosto,
Pálido como a nívea magnólia Que desbrocha ao luar; os lábios meigos, Onde um riso, mais doce do que a aurora Da sazão estival, constante estava;
E os olhos mais formosos que as estreitas Do céu meridional, reproduzidas Na face das lagoas do deserto; A cabeça mais linda e graciosa
Que da virgem primeira, que da terra Subiu aos pés de Deus, ganhando a palma Da bem-aventurança — ao pensamento Acordavam ideias de outra vida,
Delícias de uma pátria que perdemos, Vagas saudades do infinito, e ainda... Oh! não posso explicar, mas creio e sinto — A presença de um Deus clemente e justo! —
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