Carregado de ferros, junto às grades, Amortecido o olhar, lívido o rosto, João comtempla uma estrela solitária, Que pouco a pouco apaga-se e se afunda
Nos véus caliginosos do Ocidente. Nem um amigo, um sócio de infortúnio, Nem uma voz humana, as longas horas Amenizam do pobre encarcerado!...
Do teto escuro e baixo, gota a gota, Ressuma, estala e cai no chão lodoso Condensada humidade; nos recantos Da cripta tenebrosa, livremente
Passeia o escorpião, a osga brinca, Arrasta-se tranquila a treda víbora. Que pungentes lembranças, que saudades Amargas e cruéis, que pensamentos
Sinistros e aflitivos não torturam Do filho de Isabel a mente e o peito! Quem pudera saber o que se passa Naquela fronte heroica? — Porventura,
À luz da bela estrela que cintila, Qual uma gota de amoroso pranto, No triste véu da noite, ao longe avista As montanhas natais, frescas e umbrosas,
O vale do Jordão, e os verdes bosques Das encostas do Hermon? Os lindos campos Dos terrenos de Dan, cheios de flores, Cobertos de rebanhos? — Porventura,
Lembra-se de Jesus e seus amigos? Das santas penitências do deserto? Dos primeiros milagres do batismo? Chora os tempos felizes que passaram?
Ou, tomado de horror, mede o futuro, E só vê dissabores e amarguras, E talvez o suplício?... — Oh! não! a morte Não amedronta o rígido profeta!
O martírio... não teme, antes o aspira E aguarda, como a prova gloriosa De seu zelo e fervor; o mais... que importa!...
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