Skip to content
1841–1875

XVII

Luís Nicolau Fagundes Varela

Ao portão impedido, chegam, param Quatro moços robustos, conduzindo No próprio leito, sócio de dez anos, De dez anos de dores e amarguras,

Um infeliz, exangue paralítico. Falam à multidão, instam, suplicam Que os deixe, até Jesus, levar o enfermo. Baldado empenho! A multidão é surda:

A multidão é cega ou... deslumbrada: A multidão só tem um pensamento, Uma ideia, — um desejo: — ver o Mestre! O Mestre ouvir!... O mais, pouco lhe importa.

Não descoroçoados, senão crentes, Guiados pela fé, mãe dos milagres, Removem para um canto o desgraçado, Os amigos fiéis. — Escadas buscam:

Contra a parede as firmam, cautelosos: Alçam o pobre leito e o pobre amigo; Ouvido escrutador às telhas unem, Soerguem-nas; aos caibros desnuados

Cordas amarram, pelas cordas descem, À sala baixa onde Jesus pratica, No pobre leito o mísero doente. Um grito de terror quebra o silêncio!

Olham ao teto os circunstantes, olham As sombras vacilantes nas paredes, Olham para Jesus, para a mofina E lívida figura do entrevado,

Imóvel, envolvida em alvos panos, Semelhante ao cadáver macilento Que levam a enterrar. — Senhor, curai-me! Tende pena de mim, Senhor! — murmura

Com voz entrecortada de suspiros. — Homem, Jesus exclama, os teus pecados Perdoados estão! — Ouvis? Cochicham Os fariseus e escribas, vis hipócritas,

Que da lei zeladores se apregoam, — Ele fala em perdão! Ele se atreve A competir com Deus! — Blasfêmia horrenda! — Loucos! Jesus responde, o que mais custa:

Dizer ao desditoso: os teus pecados Perdoados estão, ou ordenar-lhe: Levanta-te, caminha? — Agora, escuta, Diz voltando-se ao mísero doente:

Ergue-te! Mando eu, — toma teu leito, Vai para casa de teus pais, ouviste?... — Oh! Cristo! Os povos todos te bendigam Louvem as gerações teu santo nome

Por séculos e séculos! — exclama, De um salto levantando-se, e caindo Aos pés do Salvador, o pobre moço! — Vai, — ordena Jesus. — Risonho, alegre,

Toma o mancebo a cama sobre os ombros, E afasta-se levando a felicidade A seus aflitos pais. Maravilhado À roda de Jesus pondera o povo:

— Hoje vimos prodígios inauditos! —

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.