Ao portão impedido, chegam, param Quatro moços robustos, conduzindo No próprio leito, sócio de dez anos, De dez anos de dores e amarguras,
Um infeliz, exangue paralítico. Falam à multidão, instam, suplicam Que os deixe, até Jesus, levar o enfermo. Baldado empenho! A multidão é surda:
A multidão é cega ou... deslumbrada: A multidão só tem um pensamento, Uma ideia, — um desejo: — ver o Mestre! O Mestre ouvir!... O mais, pouco lhe importa.
Não descoroçoados, senão crentes, Guiados pela fé, mãe dos milagres, Removem para um canto o desgraçado, Os amigos fiéis. — Escadas buscam:
Contra a parede as firmam, cautelosos: Alçam o pobre leito e o pobre amigo; Ouvido escrutador às telhas unem, Soerguem-nas; aos caibros desnuados
Cordas amarram, pelas cordas descem, À sala baixa onde Jesus pratica, No pobre leito o mísero doente. Um grito de terror quebra o silêncio!
Olham ao teto os circunstantes, olham As sombras vacilantes nas paredes, Olham para Jesus, para a mofina E lívida figura do entrevado,
Imóvel, envolvida em alvos panos, Semelhante ao cadáver macilento Que levam a enterrar. — Senhor, curai-me! Tende pena de mim, Senhor! — murmura
Com voz entrecortada de suspiros. — Homem, Jesus exclama, os teus pecados Perdoados estão! — Ouvis? Cochicham Os fariseus e escribas, vis hipócritas,
Que da lei zeladores se apregoam, — Ele fala em perdão! Ele se atreve A competir com Deus! — Blasfêmia horrenda! — Loucos! Jesus responde, o que mais custa:
Dizer ao desditoso: os teus pecados Perdoados estão, ou ordenar-lhe: Levanta-te, caminha? — Agora, escuta, Diz voltando-se ao mísero doente:
Ergue-te! Mando eu, — toma teu leito, Vai para casa de teus pais, ouviste?... — Oh! Cristo! Os povos todos te bendigam Louvem as gerações teu santo nome
Por séculos e séculos! — exclama, De um salto levantando-se, e caindo Aos pés do Salvador, o pobre moço! — Vai, — ordena Jesus. — Risonho, alegre,
Toma o mancebo a cama sobre os ombros, E afasta-se levando a felicidade A seus aflitos pais. Maravilhado À roda de Jesus pondera o povo:
— Hoje vimos prodígios inauditos! —
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