Skip to content
1841–1875

XVII

Luís Nicolau Fagundes Varela

O átrio do templo, alegre, iluminado Pelos raios do sol, naquelas horas Recordava uma festa. Os operários Descansando dos áridos trabalhos

Sobre os bancos de pedra conversavam; Aqueciam-se os velhos friorentos Ao suave calor do astro propício; As ingênuas mulheres e as crianças

Que saltavam risonhas nas calçadas, Vendo o divino Mestre aproximar-se, Abriam-lhe caminho, proferindo Jubilosos louvores: — Salve, Mestre,

Pai dos enfermos e dos pobres, salve! — Cubra-te Deus de bênçãos incessantes, Jesus de Nazaré, que participas Das tristezas e mágoas de teu povo!

Toma nossa defesa e nos protege, Enviado do Altíssimo! Os tiranos Tremem de ouvir teus lúcidos discursos! — Assim a gratidão e o amor falavam,

E este, não da lisonja, ameno incenso Aprazia ao Senhor. Quando se expande Sincero o coração, celeste gênio Dá sublime eloquência aos desgraçados.

A fachada do templo, os grandes arcos, O pórtico espaçoso, obras soberbas De forte alvenaria, o enorme vulto Desse prodígio de cimento e pedra,

De novas reflexões tornou-se o assunto. — Que portentosa fábrica! — exclamaram Os amigos de Cristo; vede, Mestre, Quão formidáveis são estas muralhas!

Estes grossos portais, estas cornijas Que parecem de bronze! O próprio templo Não se atreve a manchar tantos primores! — Que pensamentos vãos! — Jesus responde:

— Como virá sentar-se a eternidade Sobre as obras dos homens? O futuro Há de mostrar os erros do presente. O furacão do estrago, a noite horrenda,

Passarão por ali. Friso por friso, Pilastras, coruchéus, muros espessos, Maravilhas das artes, das riquezas, Cairão — para sempre. — Imundas serpes

Se arrastarão tardias sobre o solo, Onde se eleva agora o santuário! Então lhe perguntaram seus amigos: Quando sucederão estas desgraças,

Estas calamidades assombrosas De que falais, Senhor? Quais seus princípios, E os sinais precursores! — Sede firmes, Responde o Salvador com voz solene,

Não vos deixeis levar pela mentira E aparências falazes, — nesse tempo Muitos virão debaixo de meu nome Dizendo: Eu sou Cristo! — Então o mundo

Será um campo imenso de batalha! Armar-se-ão impérios, contra impérios, E reinos contra reinos! Como os tigres, Os povos rugirão se espedaçando!

Os rios secarão, e à luz sinistra Do esbraseado céu, as torvas ondas Descobrirão os fundos dos abismos, Os vórtices de horrendos sorvedouros!...

Por toda a parte onde existir colinas, Altas montanhas, escabrosos cerros, Rebentarão vulcões! Gretado o solo, Retalhado de fendas pavorosas,

Vomitará torrentes de betume, Súlfur ardente, labaredas vivas! As ossadas dos velhos megatérios, Dos broncos, monstruosos mastodontes,

Rudes leviatãs, dragões enormes, Como a espuma dos vinhos fermentados, À flor da terra surgirão! Os mortos Sacudirão as cinzas dos sepulcros,

E ao clangor da trombeta atroadora Correrão tropeçando sobre escombros Ao negro vale do juízo eterno, Ao fundo Josafá! — Antes, contudo,

Destas cenas finais, sereis de rastros Levados às tremendas sinagogas, Das sinagogas às prisões sombrias, Das prisões aos martírios inauditos!...

Não cogiteis respostas, nem defesas, Que vos darei palavras e virtudes, Fortes, irresistíveis! — Sede firmes, E nada perdereis: na paciência

Tendes a salvação, tendes a glória. Então, sobre uma nuvem radiante, Vosso libertador vereis, que desce Cheio de luz, poder e majestade!

Refleti no que digo, — passa o tempo, Ha de passar o céu, passar a terra; Porém, como as verdades infinitas, Não passarão jamais os meus preceitos! —

Calou-se o Salvador, volveu tristonho Um derradeiro olhar, olhar pressago, Sobre as ondas de povo que o cercavam, Que humildes escutavam seus discursos,

E que amanhã... Logo, porém, chamando Os singelos amigos, retirou-se, E ao monte caminhou das Oliveiras, Onde, depois das prédicas diárias,

Soía descansar, longe das turbas. — Proferindo estas últimas palavras, Também ralou-se o narrador piedoso, O profeta das turbas do deserto.

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.