O átrio do templo, alegre, iluminado Pelos raios do sol, naquelas horas Recordava uma festa. Os operários Descansando dos áridos trabalhos
Sobre os bancos de pedra conversavam; Aqueciam-se os velhos friorentos Ao suave calor do astro propício; As ingênuas mulheres e as crianças
Que saltavam risonhas nas calçadas, Vendo o divino Mestre aproximar-se, Abriam-lhe caminho, proferindo Jubilosos louvores: — Salve, Mestre,
Pai dos enfermos e dos pobres, salve! — Cubra-te Deus de bênçãos incessantes, Jesus de Nazaré, que participas Das tristezas e mágoas de teu povo!
Toma nossa defesa e nos protege, Enviado do Altíssimo! Os tiranos Tremem de ouvir teus lúcidos discursos! — Assim a gratidão e o amor falavam,
E este, não da lisonja, ameno incenso Aprazia ao Senhor. Quando se expande Sincero o coração, celeste gênio Dá sublime eloquência aos desgraçados.
A fachada do templo, os grandes arcos, O pórtico espaçoso, obras soberbas De forte alvenaria, o enorme vulto Desse prodígio de cimento e pedra,
De novas reflexões tornou-se o assunto. — Que portentosa fábrica! — exclamaram Os amigos de Cristo; vede, Mestre, Quão formidáveis são estas muralhas!
Estes grossos portais, estas cornijas Que parecem de bronze! O próprio templo Não se atreve a manchar tantos primores! — Que pensamentos vãos! — Jesus responde:
— Como virá sentar-se a eternidade Sobre as obras dos homens? O futuro Há de mostrar os erros do presente. O furacão do estrago, a noite horrenda,
Passarão por ali. Friso por friso, Pilastras, coruchéus, muros espessos, Maravilhas das artes, das riquezas, Cairão — para sempre. — Imundas serpes
Se arrastarão tardias sobre o solo, Onde se eleva agora o santuário! Então lhe perguntaram seus amigos: Quando sucederão estas desgraças,
Estas calamidades assombrosas De que falais, Senhor? Quais seus princípios, E os sinais precursores! — Sede firmes, Responde o Salvador com voz solene,
Não vos deixeis levar pela mentira E aparências falazes, — nesse tempo Muitos virão debaixo de meu nome Dizendo: Eu sou Cristo! — Então o mundo
Será um campo imenso de batalha! Armar-se-ão impérios, contra impérios, E reinos contra reinos! Como os tigres, Os povos rugirão se espedaçando!
Os rios secarão, e à luz sinistra Do esbraseado céu, as torvas ondas Descobrirão os fundos dos abismos, Os vórtices de horrendos sorvedouros!...
Por toda a parte onde existir colinas, Altas montanhas, escabrosos cerros, Rebentarão vulcões! Gretado o solo, Retalhado de fendas pavorosas,
Vomitará torrentes de betume, Súlfur ardente, labaredas vivas! As ossadas dos velhos megatérios, Dos broncos, monstruosos mastodontes,
Rudes leviatãs, dragões enormes, Como a espuma dos vinhos fermentados, À flor da terra surgirão! Os mortos Sacudirão as cinzas dos sepulcros,
E ao clangor da trombeta atroadora Correrão tropeçando sobre escombros Ao negro vale do juízo eterno, Ao fundo Josafá! — Antes, contudo,
Destas cenas finais, sereis de rastros Levados às tremendas sinagogas, Das sinagogas às prisões sombrias, Das prisões aos martírios inauditos!...
Não cogiteis respostas, nem defesas, Que vos darei palavras e virtudes, Fortes, irresistíveis! — Sede firmes, E nada perdereis: na paciência
Tendes a salvação, tendes a glória. Então, sobre uma nuvem radiante, Vosso libertador vereis, que desce Cheio de luz, poder e majestade!
Refleti no que digo, — passa o tempo, Ha de passar o céu, passar a terra; Porém, como as verdades infinitas, Não passarão jamais os meus preceitos! —
Calou-se o Salvador, volveu tristonho Um derradeiro olhar, olhar pressago, Sobre as ondas de povo que o cercavam, Que humildes escutavam seus discursos,
E que amanhã... Logo, porém, chamando Os singelos amigos, retirou-se, E ao monte caminhou das Oliveiras, Onde, depois das prédicas diárias,
Soía descansar, longe das turbas. — Proferindo estas últimas palavras, Também ralou-se o narrador piedoso, O profeta das turbas do deserto.
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