Mas, em Jerusalém, de volta, Cristo Viu-se outra vez cercado dos escribas, E doutores da lei. Aniquilados Pelas duras lições, pelos exemplos
Aspérrimos dos dias precedentes, Os fariseus corridos se esquivavam De mais o interrogar, que bem sabiam Pronto a lhes responder, deixando ensejo
De seus rivais aos ódios e sarcasmos; Os saduceus contentes exultaram; Eram, pois, os senhores do terreno, Onde digladiavam-se os embustes,
E o pendão da impostura flutuava. Um dos seus campeões chegou-se ao Mestre, E assim principiou: — Qual o primeiro De nossa lei sagrado mandamento? —
— Adorarás teu Deus, Jesus responde, Sobre todas as cousas, com pureza, Com todo o coração, crença e humildade: Eis o primeiro mandamento; o outro,
Grande como este, e deste deduzido, Diz assim: — Amarás teu semelhante, Teu igual, teu irmão, como a ti mesmo. Estes dois mandamentos compreendem
Toda a lei de Moisés e dos profetas. — Os saduceus calaram-se, temendo Que deste ponto o Salvador passasse Ao divino mistério, que negavam.
Porém Jesus, voltando a outro assunto, Perguntou, dirigindo-se aos escribas: — E quanto a vós, o que pensais de Cristo? De quem o credes filho? — Nós julgamos
Que é filho de Davi, — lhe responderam. — Como! O grande monarca, o rei piedoso, O chama seu Senhor, e humilde exclama: O Senhor glorioso e Onipotente
Falou a meu Senhor: — à minha destra Senta-te, que farei de teus contrários Estrados de teus pés!... — Cativo o povo Da maviosa voz e das palavras
Claras, distintas, do divino Mestre, Conservava-se mudo e respeitoso. Não longe do lugar em que se achavam Era o gazofilácio, o pio cofre,
Onde lançavam grandes e pequenos As desiguais ofertas, liveladas Pela santa intenção. Os opulentos Faziam retinir áureas moedas,
Os indigentes o óbolo molhado De viscoso suor, de amargo pranto: Quando ninguém mais vinha, adiantou-se Uma infeliz viúva a lentos passos,
E erguendo a magra mão, depôs na caixa Duas moedas de valor mesquinho. — Olhai, diz o Senhor aos assistentes, Mais do que todos, abastados, ricos,
Foi generosa a mísera viúva! Do muito que sobrava os outros deram, Mas, ela da desgraça e da pobreza Deu tudo quanto tinha, e que restava
Para enganar a fome de alguns dias! — E prosseguiu depois de breve pausa: — Oh! guardai-vos daqueles que preferem A ostentação à cândida modéstia!
Guardai-vos dos escribas, que se cobrem De pomposos vestidos e se orgulham Das saudações do vulgo mentiroso! Que procuram nas mesas dos banquetes
As melhores cadeiras, e disputam O primeiro lugar nas sinagogas! Que devoram as casas das viúvas E simulam orar! Sobre eles pesa
Maior condenação, pena mais grave! — E calou-se Jesus. — Muitos doutores, Muitos juízes e anciãos do povo Creram no Salvador, mas não ousaram
Reconhecê-lo em público, temendo Serem das sinagogas despedidos. Triste vaidade! Escrúpulo perverso!
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